Patrimônio do empresário morto em 2022 pode chegar a R$ 100 bi; Sandra Miessa afirma que começou a ser preparada para sucessão em 2019
Por Beth Koike - De São Paulo
À frente dos negócios fundados pelo empresário João Carlos DiGenio, seu marido por 38 anos e morto em 2022 devido a uma parada cardíaca, Sandra Miessa é frequentemente procurada por investidores e grupos educacionais para uma potencial venda da Unip e do Objetivo. No entanto, essa possibilidade está descartada. Além de Sandra, os três filhos - o casal de gêmeos de 21 anos e o caçula de 18 - já estão trabalhando no grupo de educação. Todos estudam administração de empresas.
"As pessoas sempre pensam assim: ah, faleceu o dono, quem é a viúva? O que ela vai fazer? Sempre acham que a mulher vai falar para passar [o negócio] para a frente. Mas eu já estava aqui há 40 anos", disse Sandra, em uma das raras entrevistas à imprensa, concedida na sede do grupo, em São Paulo.
Ela deu como exemplo de sua gestão a abertura de quatro cursos de medicina em Alphaville (Grande SP), além de Campinas, São José do Rio Pardo e Sorocaba, no interior paulista. A Unip não tinha essa graduação, apesar de ter autorização do Ministério da Educação (MEC).
Além de Unip e Objetivo, o patrimônio do empresário é formado por fazendas de gado nelore, imóveis, emissoras de rádio e TV (Grupo Mix de Comunicação). Estima-se que a herança gire na casa dos casa dos R$ 30 bilhões, podendo chegar a R$ 100 bilhões com atualização do valor patrimonial imobiliário. Em educação, por exemplo, há 27 campi da Unip e 14 escolas Objetivo, distribuídos em grandes propriedades localizadas em regiões nobres e estratégicas, como as próximas ao metrô. O valor do patrimônio não foi confirmado pela viúva e seus advogados.
Sobre as quatro fazendas, situadas nos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rondônia, Sandra disse que, atualmente, o projeto é mantê-las como estão apesar de não ser favorável ao gado de corte. Já as emissoras estão em nome da família da irmã do empresário, Ana Ida DiGenio Barbosa, marido e filhos.
Há um processo em curso no Supremo Tribunal da Justiça (STF) para que esses ativos de mídia sejam "devolvidos" aos herdeiros diretos. O lado da viúva alega que foi feito um acordo de cessão temporária de cotas. O sobrinho do empresário, Fernando DiGenio Barbosa, por sua vez, afirma que foi feita uma negociação envolvendo doação e venda dos ativos de mídia.
Com os três herdeiros diretos já atuando nos negócios da família, diminuem as chances de uma venda da Unip e do Objetivo por falta de sucessão. As ofertas de investidores, apresentadas logo após a morte do empresário, vieram nesse contexto. "Meus três filhos são superinteressados, me ajudam muito, já dão sugestões, são ótimos em finanças. Ainda são jovens, precisam de amadurecimento, mas já estão aqui comigo", disse Sandra, que também assumiu a cadeira de reitora da Unip como "forma de mostrar para todo mundo que a Unip não será vendida, que a Unip não será passada para ninguém."
Sandra disse que começou a ser preparada para suceder DiGenio em 2019. Àquela época, o nome cotado para o posto era o de Jorge Brihy Junior, filho do ex-sócio e braço-direito de DiGenio. Mas Brihy Junior deixou a Unip para montar uma operação escolar no Sul do país. Desde então, ela disse que passou a ser incluída em todas as reuniões do grupo, dos mais diversos temas. Até então, suas responsabilidades estavam restritas às áreas de marketing, concessão de bolsas de estudos e apoio ao pedagógico.
Havia uma expectativa de que Fernando Barbosa seria o sucessor, uma vez que seus primos ainda eram menores de idade. O sobrinho do empresário estava na Unip desde 2015 e, anteriormente, por duas décadas, tocou os negócios de rádio e TV do grupo. No entanto, Fernando foi demitido logo após o falecimento de DiGenio, que não deixou testamento.
A defesa de Fernando Barbosa informou que ele "não se projetou artificialmente como seu sucessor, como tentam fazer crer as infundadas alegações. Ao contrário, foi preparado pelo próprio João DiGenio, ao longo de sua vida, para ocupar posições de elevada responsabilidade nas empresas do grupo." Em comunicado enviado ao Valor, afirmou que a escolha foi uma "decisão expressa de DiGenio, construída ao longo de anos de convivência, formação profissional e confiança recíproca. O mesmo se aplica a Oswaldo Pereira Barbosa, pai de Fernando, que foi procurador pessoal de DiGenio por 53 anos, atuando em assuntos pessoais, patrimoniais e empresariais de sua mais alta confiança."
[Fernando Barbosa] não se projetou artificialmente como seu sucessor, como tentam fazer crer as infundadas alegações"
- Defesa de Fernando Barbosa
A demissão de Fernando foi o gatilho para uma briga familiar que foi parar nos tribunais. Fernando e seu pai, Oswaldo Barbosa, que cuidava das fazendas e também foi dispensado, foram à Justiça para serem incluídos no inventário, mas não tiveram sucesso. Fernando alega que a medida foi tomada porque sua mãe era sócia em alguns negócios. Oswaldo é representado pelo mesmo escritório do filho. A defesa de Sandra, no entanto, informou que Ana Ida era exclusivamente sócia, o que não lhe dá direito à herança.
"Meu marido já não queria mais o Fernando, estava irritado com algumas coisas que ele fez, que prefiro não falar. Mas eu segurei ele para não magoar a Ana [mãe de Fernando e irmã de DiGenio], que não estava bem de saúde. Mas meu marido foi embora antes da irmã. Cumpri um desejo que era do meu marido ao promover a reestruturação da diretoria", disse a viúva.
DiGenio morreu aos 82 anos, sem deixar testamento. "Ele era supersticioso, achava que fazer testamento chamava a morte", afirmou Sandra, que conheceu o empresário no dia 08 de agosto de 1982, em uma festa da firma. Na época, ela trabalhava como secretária no grupo.
Quatro anos após a morte do empresário, o inventário ainda está aberto devido a um processo de reconhecimento de paternidade. O filho de uma ex-funcionária da Unip, Bruno Augusto de Mello Pará, alega ser herdeiro de DiGenio. No entanto, exames de DNA deram negativo. Com essa derrota, Bruno tenta agora comprovar que é filho por socioafetividade. Seu argumento é que o empresário teria pago várias de suas despesas, inclusive a faculdade, por mais de 35 anos. Procurado pela reportagem, Pará não retornou os pedidos de entrevista.
Segundo a viúva e seus advogados, DiGenio ajudava muitos, teria contribuído financeiramente para pelo menos 30 pessoas. "Meu marido tinha uma característica de generosidade impressionante. A pessoa dizia que estava com um problema, ele já dizia que ia resolver e ficava por anos resolvendo", disse. "Ele [Bruno] vai ter que provar a socioafetividade, não há registros deles juntos, não há fotos", complementou Sandra.
Fernando está ajudando Bruno nesse processo de reconhecimento de paternidade. "DiGenio sempre reconheceu sua paternidade perante pessoas de sua confiança, tratando-o com afeto e zelando por seus cuidados. Ao longo do período em que esteve vivo, prestou auxílio ao filho e manifestou a Fernando e a pessoas próximas sua preocupação com Bruno, pedindo que zelassem por seu bem-estar", informou a defesa do sobrinho do empresário.
Com a alegação de que é filho de DiGenio, Bruno negociou, no mercado, cotas de direitos hereditários a terceiros.
A briga judicial mais recente envolvendo a família de DiGenio partiu de Fernando Barbosa, que fez uma denúncia no Ministério Público de São Paulo contra Sandra, alegando que seu tio teria sofrido maus-tratos, estaria com demência e teria morrido isolado. O processo foi arquivado por prescrição de prazo, uma vez que a morte ocorreu há quatro anos.
Sandra negou os maus-tratos e disse que DiGenio estava consciente até a data da morte, e que ele até participou do processo de criação do Novo Ensino Médio. A defesa da viúva também rebateu as acusações, dizendo que o empresário estava lúcido, que fez reunião on-line, que está gravada, dois meses antes de sua morte.
Neste ano, houve ainda um grupo de fraudadores que falsificou assinaturas de DiGenio e cobrou cerca de R$ 1 bilhão numa suposta compra de lotes em Piraju, no interior de São Paulo. Os golpistas foram presos.
Valor
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/07/15/unip-nao-sera-vendida-para-ninguem-diz-viuva-de-digenio.ghtml





