Ex-ministro cobra composição com mais forças políticas no novo governo para atender 'recado do país' nas urnas e diz que não voltará a disputar eleição
Por Sérgio Roxo - Brasília
Derrotado na disputa para deputado federal em São Paulo, o ex-ministro José Dirceu (PT) avalia, em entrevista ao GLOBO, que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi uma vitória do partido e defende que o governo abra mais espaço para outras forças políticas e setores da sociedade no quarto mandato.
Dirceu também cobra diálogo inclusive com eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) e diz ser "urgente" uma renovação no PT. Leia a seguir a entrevista:
O que Lula tem de mudar no quarto mandato para que o caminho do PT não seja tão difícil na próxima eleição?
Ele já se comprometeu a ouvir a voz que se expressou nas ruas. Houve uma revolução pacífica e democrática pelo voto no Brasil. A sociedade clamou para que Lula fizesse um governo que retratasse as forças que o elegeram na composição. O presidente tem uma oportunidade histórica de chamar o país a um pacto político. O Brasil precisa de reformas, que precisam ser pactuadas: tributária, financeira, política e do Judiciário. Ele tem autoridade para liderar isso.
Que critérios devem ser usados para a formação do governo?
O governo precisa expressar as forças políticas parlamentares, pelos partidos, mas tem que representar também essa expectativa de amplos setores sociais que não votariam no Lula. Votaram com compromisso democrático e com o compromisso de que o governo vai espelhar as expectativas e as reivindicações. O presidente conhece a minha visão sobre isso e já expressou publicamente qual caráter quer dar para o governo. Nossa expectativa, conhecendo o Lula, é que ele seja fiel a esse compromisso. Há um contrato com o povo brasileiro que ele firmou no discurso da vitória na Avenida Paulista.
E o futuro do PT?
Nosso futuro é o da esquerda. Não é o de uma liderança, um substituto do Lula. Precisamos unir forças progressistas e democráticas. A vitória na eleição não foi do PT. Temos que tirar consequências disso, não pode só falar. Temos que fazer quase uma reconstrução do PT. E dialogar com PSOL, Rede, PDT e PSB para constituir uma força mais orgânica. Temos de compreender melhor os setores da sociedade, sobretudo a juventude, insatisfeitos com a esquerda. Precisamos superar essa questão que o PT é antievangélico. Não podemos ter preconceito de que os evangélicos são bolsonaristas.
Quem será o sucessor do Lula?
Terão de provar isso governando ou liderando. Alguém vai se destacar. O (Fernando) Haddad se destacou como ministro da Fazenda e da Educação e ganhou espaço. Perdeu a eleição, mas isso não quer dizer nada. O Lula perdeu três e se elegeu quatro vezes presidente. Acho que elas (as lideranças) vão ter que surgir na construção do país, do próprio PT e da luta democrática. A direita já tem nomes enfileirados.
O PT do Nordeste ganhou força. Esse grupo vai liderar o partido?
Terá uma representação maior. É um fato já concretizado. O PT só tem renovação de direção em 2029, mas vai ter um congresso e uma discussão de estatuto para abrir espaço a essas realidades novas, das mulheres, dos jovens... Temos de democratizar mais o PT, melhorar a formação política e a atuação nas redes. A renovação no PT é urgente.
Em 2022 já havia a expectativa por um governo mais amplo, o que não ocorreu. Por quê?
Mas ele já deu a entender que estava errado, pelo modo como se expressou. Ele ouviu as vozes nas ruas e entendeu o recado do país. Não podemos decepcionar essas pessoas e temos que ganhar a juventude que votou legitimamente no Flávio. Nós não devemos estigmatizar, atacá-la como se fosse um pecado votar na direita. Temos que dialogar.
Como é possível construir o ajuste fiscal?
Existe um problema real no Brasil, que é a dívida pública. Mas tem que baixar o juro. Precisa fazer reforma, mas então vamos começar pela renúncia fiscal. O Lula tem que chamar as forças políticas, empresariais e o movimento sindical para debater. O que pedem? O que dão em troca? Não podem pedir para o governo fazer um ajuste que vai contra os interesses da maioria que votou a favor do Lula. Uma das razões da mobilização foi o medo de perder a vinculação do salário mínimo, a aposentadoria, a saúde, a educação... Não nos peçam para fazer aquilo que o eleitorado não aprovou.
Houve uma mudança de perfil nos nomes de esquerda eleitos, mais jovens e ligados a pautas identitárias. A sua derrota tem relação com isso?
É verdade que houve um movimento no voto jovem de mulher e no voto do PSOL, no caso de São Paulo. O PT perdeu 700 mil votos para a Câmara no estado. Houve um fenômeno, me prejudicou em parte. Eu não fui eleito porque não fiz campanha. Fiquei em casa de 10 de maio a 22 de setembro (em tratamento contra um linfoma). Eu teria sido eleito, não com uma votação expressiva. Já virei essa página. Não serei mais candidato.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/11/03/entrevista-vitoria-nao-foi-do-pt-e-sucessor-de-lula-tera-que-se-provar-governando-ou-liderando-diz-jose-dirceu.ghtml





