Campanha havia condicionado participação à presença de Lula, mas passou a avaliar que custo de ficar fora do último confronto superava riscos de exposição
Por Luísa Marzullo - Brasília
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) mudou o cálculo sobre a participação no último debate antes do primeiro turno e decidiu que o candidato irá ao encontro promovido pela TV Globo na quinta-feira mesmo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não compareça. A reavaliação ocorreu em meio ao acirramento da disputa presidencial e após o episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida, que gerou desgaste para a campanha.
Até a semana passada, a orientação era outra. Flávio condicionava sua presença à participação de Lula, e integrantes da campanha avaliavam que havia pouco a ganhar em um debate sem o presidente. Nesse cenário, o candidato do PL poderia se tornar o principal alvo dos demais adversários enquanto o petista ficaria fora do confronto. A prioridade seria manter Flávio nas ruas e evitar uma exposição considerada desnecessária a poucos dias da votação.
O cálculo mudou nos últimos dias. A percepção entre integrantes da campanha é de que a disputa se tornou mais acirrada na reta final, reduzindo a margem para abrir mão da exposição proporcionada pelo último debate. A avaliação passou a ser de que, mesmo sem Lula, os benefícios de ocupar o espaço e responder diretamente a temas que pressionaram a candidatura superam os riscos de Flávio concentrar os ataques dos adversários.
Segundo a pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, Flávio tem 42% das intenções de voto no segundo turno, contra 42% de Lula. Há duas semanas, Flávio tinha 42%, enquanto Lula marcava 40%. No primeiro turno, Lula lidera, com 39%, enquanto o adversário tem 34%.
A mudança tem outro componente estratégico. Auxiliares de Flávio querem usar a confirmação de presença para mexer no cálculo da própria campanha de Lula. A avaliação no PL é que o presidente tinha, até agora, maior controle sobre a configuração do último debate: como Flávio condicionava sua participação à do petista, uma ausência de Lula poderia também retirar do confronto seu principal adversário.
Ao confirmar que irá independentemente da decisão do presidente, Flávio tenta inverter essa lógica. A aposta é aumentar a pressão para que Lula compareça e, caso ele mantenha uma eventual ausência, explorar a decisão politicamente na reta final. Aliados avaliam que a mudança transfere ao petista o ônus de explicar por que não participaria do último debate antes das urnas.
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida foi um dos fatores que pesaram na revisão da estratégia. A circulação de publicações que associavam Flávio a uma iniciativa para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil levou o candidato a classificar o caso como a "maior fake news da campanha" e abriu uma frente de desgaste com setores católicos.
No domingo, em Goiânia, Flávio acusou o PT de manter uma "Liga da Mentira" e afirmou que "gente dentro da CNBB" teria ajudado a disseminar o conteúdo.
- O PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu, com a ajuda de gente dentro da CNBB, infelizmente. O que aconteceu ali foi, quase que automaticamente, uma disseminação dessa fake news. Só que rapidamente se reverteu, porque a verdade está do nosso lado - afirmou.
Horas depois, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil negou participação na produção ou divulgação de informações falsas e cobrou "fatos e provas" para sustentar a acusação. "A mentira não se combate com outra mentira", afirmou a entidade.
O caso foi impulsionado nas redes sociais após um debate sobre um projeto de lei arquivado há quase 20 anos que tinha o objetivo de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
A campanha decidiu não prolongar o confronto com a CNBB, mas considera que o debate oferece a Flávio uma oportunidade para responder caso o episódio seja explorado pelos adversários e reforçar que nunca defendeu qualquer medida contra a Igreja. O tema ganhou peso por envolver o eleitorado católico, segmento disputado pelas principais candidaturas.
A tentativa de conter o desgaste também entrou na agenda do candidato. Nesta segunda-feira, Flávio participa nesta noite do Santo Flow, podcast voltado ao público católico.
A ofensiva pelo voto útil também entrou no cálculo. Flávio intensificou nos últimos dias o apelo aos eleitores de candidatos de direita que aparecem atrás nas pesquisas. Em Goiânia, reduto eleitoral de Ronaldo Caiado (PSD), fez no domingo um dos pedidos mais explícitos até agora para que quem cogita apoiá-lo apenas no segundo turno antecipe o voto.
- Eu não tenho inimigos aqui em Goiás. Eu não tenho adversários concorrendo comigo na Presidência, a não ser o Lula. (...) Você que está escolhendo uma candidatura diferente de Flávio, está pensando em votar no Flávio no segundo turno, eu peço humildemente: considere já votar em mim no primeiro turno, para a gente resolver logo e começar a resgatar o país o mais rápido possível - afirmou.
A discussão sobre as apostas on-line é outro tema que a campanha pretende explorar no confronto. Flávio passou a defender uma diferenciação entre apostas esportivas e jogos de cassino na internet e a criticar medidas adotadas pelo governo Lula para o setor. No domingo, afirmou que pretende preservar apostas vinculadas a eventos esportivos reais e criticou restrições que, segundo ele, atingiriam contratos de patrocínio dos clubes.
O candidato tem associado cassinos virtuais e jogos como o Tigrinho ao endividamento das famílias, ao mesmo tempo em que tenta separar essas modalidades das apostas esportivas e relacionar eventuais restrições às bets a prejuízos para clubes e para o futebol feminino.
Foi nesse novo ambiente que Flávio tornou pública, no domingo, a decisão de comparecer ao debate independentemente da presença de Lula. Questionado em Goiânia, desafiou o presidente:
- Ele que lute. Eu quero ir para lá para debater com ele. Então, estou chamando o Lula para o debate. Lula, eu quero você no debate da Globo. Vem debater comigo, porque eu vou esfregar a verdade na sua cara e vou mostrar [ao] brasileiro - afirmou.
A decisão também alterou o planejamento da última semana. Flávio terá agendas em São Paulo nesta segunda e terça-feira. Na quarta, segue para o Rio de Janeiro, onde reduzirá os compromissos públicos para se dedicar à preparação para o debate. Na quinta-feira, permanece na cidade para o confronto. Depois, retoma a agenda de rua em Minas Gerais na sexta e passa por São Paulo e Rio no sábado, véspera da eleição
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/28/desgaste-com-caso-nossa-senhora-e-acirramento-da-disputa-com-lula-levam-flavio-a-mudar-calculo-e-decidir-ir-ao-debate-da-globo.ghtml





