Durigan: aproximação com economistas não significa que eventual novo governo adotará conduta mais fiscalista, dizem fontes - Foto: Washington Costa/MF |
Durigan deve ouvir Arminio e Malan sobre agenda fiscal

Durigan deve ouvir Arminio e Malan sobre agenda fiscal

Encontros darão continuidade à estratégia do ministro de ampliar o diálogo com economistas críticos à condução da política fiscal do governo Lula

Por Jéssica Sant'Ana e Mariana Andrade - De Brasília


O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve se reunir nos próximos dias, no Rio de Janeiro, com o ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga e com o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, segundo apurou o Valor. Os encontros devem dar continuidade a uma estratégia do chefe da equipe econômica de ampliar o diálogo com economistas que mantêm posições críticas em relação à condução da política fiscal do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os encontros começaram nesta semana. Durigan já conversou com os economistas Samuel Pessôa e Marcos Lisboa, na segunda-feira (17), em São Paulo. Os dois têm feito críticas a parte das políticas econômicas adotadas pelo governo e defendido uma agenda de ajuste fiscal para o país. O economista e chefe de gabinete do ministro, Fabio Terra, também participa das conversas.

Segundo um interlocutor do ministro, as reuniões têm como objetivo abrir um canal de diálogo com os principais economistas do país para ouvir o diagnóstico deles sobre a situação fiscal. Durigan também tem interesse em conhecer as propostas de ajuste fiscal defendidas pelos economistas, para analisar se há ideias que podem, eventualmente, ser aproveitadas de alguma forma em um eventual governo Lula 4.

A aproximação com economistas críticos, contudo, não significa que um eventual novo governo Lula adotará uma agenda econômica mais fiscalista. Interlocutores dizem que o objetivo do ministro é buscar possíveis áreas de consenso e avaliar propostas que possam contribuir para o equilíbrio das contas públicas sem abandonar as prioridades do atual governo, que tem como foco a manutenção de políticas públicas e a busca por um crescimento econômico sustentado.

O ministro tem defendido, em conversas reservadas com investidores e em participações em eventos públicos, que o ajuste fiscal deve ser entendido como uma agenda contínua e gradual. A avaliação é que a melhora estrutural das contas públicas não será obtida com uma única proposta ou em um curto período de tempo, mas sim por meio de diversas medidas que recomponham as receitas e controlem o crescimento das despesas obrigatórias, sem retirar direitos.

Apesar de não ser o coordenador econômico da campanha de Lula à reeleição, Durigan foi escolhido como um dos porta-vozes da campanha para assuntos econômicos.

Ele e sua equipe têm feito um diagnóstico da economia e estudado propostas que, depois, serão apresentadas à campanha e a Lula. Um interlocutor ressalta que a palavra final é sempre do presidente, mas diz que há uma preocupação de Lula com o alto nível dos juros do país, que tem pressionado o endividamento de empresas e da população.

A estratégia de ampliar o diálogo também surge em um momento em que a equipe econômica de Lula está pressionada por economistas, pelo mercado financeiro e por parte da opinião pública a adotar uma agenda de maior austeridade fiscal para controlar o ritmo de crescimento do endividamento público.

Economistas têm defendido diferentes combinações de medidas, que vão desde uma reforma da Previdência e a desindexação de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo até mudanças nas regras fiscais atuais.

Durigan tem defendido, em encontros com investidores, que é possível apertar as regras do novo arcabouço fiscal, para que as despesas cresçam até 1,5% ou 2% acima da inflação ao ano, em vez dos 2,5% permitidos atualmente. Porém, ele ainda não deu pistas de como vai controlar as despesas obrigatórias para cumprir esse eventual novo limite.

Na quarta-feira (19), Durigan fez um aceno ao mercado e reconheceu que as taxa de juros de longo prazo pagas pelo Tesouro Nacional são muito altas e que o tema precisa ser solucionado "na próxima gestão". "É inaceitável, e devemos endereçar essa questão", disse. O ministro afirmou que o cenário cria um "desafio maior", mas o Estado brasileiro deve seguir avançando "sem achar que tem bala de prata" para corrigir esse ambiente econômico.

O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, tem defendido publicamente a adoção de novos gatilhos para o arcabouço fiscal, a exemplo dos aprovados na semana passada no âmbito do projeto de lei dos combustíveis.

Esses gatilhos, contudo, são vistos como insuficientes por economistas mais fiscalistas, porque apenas impedem um crescimento mais acelerado das despesas, mas não colocam os gastos em uma trajetória de queda. Além disso, o espaço fiscal aberto vem sendo ocupado por outras políticas públicas.

Procurado, Arminio disse que não vai comentar. Os demais economistas citados não retornaram. (Colaborou Hamilton Ferrari)

Valor
https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/20/durigan-deve-ouvir-arminio-e-malan-sobre-agenda-fiscal.ghtml