Simone Tebet (Claudio Gatti/.) |
Simone Tebet: 'Faria tudo de novo'

Simone Tebet: 'Faria tudo de novo'

Candidata ao Senado diz que não se arrepende da aliança com Lula e afirma que tem trânsito com todo o espectro político, menos com a direita bolsonarista


Por Heitor Mazzoco

Oriunda de família tradicional no agronegócio, Simone Tebet nasceu em Três Lagoas e construiu sua carreira política em Mato Grosso do Sul. Foi prefeita, deputada estadual, vice-­governadora, governadora e senadora, sempre pelo MDB, no qual militou por três décadas. A sua trajetória sofreu uma inflexão em 2022, quando chegou em terceiro lugar na corrida presidencial e depois aderiu no segundo turno à candidatura de Lula contra Jair Bolsonaro. Virou ministra do Planejamento, aproximou-se da esquerda e mudou-se para São Paulo, onde virou uma aposta ao Senado, agora filiada ao PSB, na difícil batalha travada no maior colégio eleitoral do país contra o favorito governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e seus aliados. Na entrevista a VEJA ela fala sobre a baixa aprovação de Lula, a dívida pública recorde e admite que o próximo presidente terá que cortar gastos. Diz, ainda, que o embate paulista será decisivo para a disputa nacional e que seu perfil político moderado ajuda na campanha. "Ser de centro abre portas", afirma.

Lula formou uma chapa em São Paulo com quatro ex-ministros: Fernando Haddad ao governo, Márcio França como vice e a senhora e Marina Silva ao Senado. Essa eleição será crucial para a reeleição do presidente? A eleição nacional passa, sem dúvida, por São Paulo, que tem um quinto do eleitorado nacional. Por isso estamos fazendo uma frente ampla. Tem outro ex-ministro, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que foi quatro vezes governador e está na chapa presidencial. Desses cinco, quatro já foram candidatos à Presidência da República e três foram governadores. É uma chapa que tem currículo para apresentar as propostas que São Paulo precisa.

Haverá uma tentativa de atrelar a imagem do governador Tarcísio de Freitas à do ex-presidente Jair Bolsonaro? Não sei qual vai ser a estratégia da campanha nacional, mas a nossa será mostrar para a população quem é que tem as melhores propostas e o que está em jogo nessas eleições.

Quais serão os maiores desafios do país nos próximos anos? O Brasil que nós queremos para os próximos doze, dezesseis anos, passa pelas escolhas que faremos agora. No mundo e no Brasil está havendo um fenômeno muito perigoso de retrocessos civilizatórios liderados pela extrema direita.

Na campanha presidencial de 2022, a senhora foi bem votada em São Paulo e agora em 2026 lidera as pesquisas para o Senado. O futuro de sua carreira política será no estado? Eu sou muito grata a São Paulo, não pelos votos, mas porque recebeu os meus avós, imigrantes do Líbano, quando fugiam de uma situação muito adversa. Meu pai estudou em São Paulo, eu fiz mestrado em São Paulo, o estado abraçou as minhas filhas, que estão aqui há dez anos. Eu me casei há trinta anos com um paulista do interior do estado. A forma que eu tenho de devolver, se eleita, será trabalhar 24 horas por dia pelos interesses de São Paulo. E continuarei morando aqui.

"O país saiu da eleição de 2022 absolutamente dividido. E temos uma rede social que permite inverdades, fake news, narrativas, e que ampliou essa polarização, esse discurso de ódio"


Se eleita, vai exercer seu mandato ou pretende voltar a ser ministra? Continuarei senadora, não vou para canto nenhum, porque São Paulo precisa de pautas que estão fora da agenda, não só econômicas, já que cresceu menos que média nacional em 2025, mas de políticas sociais e de segurança pública, de combater o crime organizado, de acabar com a violência doméstica.

A senhora é vista como uma pessoa mais ao centro político. Isso tem facilitado a interlocução com o empresariado e com a Faria Lima? O fato de eu ser de centro ajuda muito, mas não sei se o fato de ser autêntica e de ter coragem de falar o que precisa ser dito não neutraliza essa facilidade. Ser de centro abre portas, pois posso dialogar tanto com a centro-direita e com a direita quanto com a centro-esquerda e esquerda. Só não consigo conversar com a extrema direita porque ela não quer diálogo. Sou do agronegócio e gosto de dizer isso para mostrar que o setor produtivo não é insensível à dor alheia.

A senhora participou ativamente, como ministra, das discussões sobre o tarifaço dos EUA. Como vê esse embate entre Estados Unidos e Brasil? O governo americano está fechando o mundo em quintais, colocando muralhas e impedindo as relações comerciais tão saudáveis entre países. Eu acho que pagarão um preço muito alto, com a inflação dos produtos que consomem. O que mais me espanta são pessoas que defendem uma pátria estrangeira. Isso serve tanto para o ex-­presidente da República, seu candidato Flávio e a família Bolsonaro quanto para o governador de São Paulo, que usou um boné que não era nosso.

O governo Lula é desaprovado por cerca de 50% do eleitorado e parece que isso cria um teto eleitoral para ele. Por que isso ocorre? O país saiu da eleição de 2022 absolutamente polarizado. E temos uma rede social que permite inverdades, fake news, narrativas, e estendeu essa polarização, esse discurso de ódio. Ficou um Fla-Flu, uma coisa ideológica. O governo produziu feitos em tantas áreas, mas a população ficou absolutamente perdida sobre essas coisas, e isso interessa a uma minoria da direita, que precisa do caos para se vender como heróis, messias, salvadores da pátria. Já vimos esse filme. Aconteceu com Fernando Collor, aconteceu com Jair Bolsonaro.

Mas o governo também errou? A dívida pública, por exemplo, já passou da casa dos 10 trilhões de reais e chegou a 82% do PIB, um recorde desde 2021. Por que isso aconteceu e que tipo de problemas essa situação pode gerar para o país nos próximos anos? Nós temos uma classe política que não tem compromisso com o futuro e com a responsabilidade fiscal. Apesar de ser um governo progressista, Lula me colocou no manejo do Orçamento mesmo sabendo que eu sou liberal na economia. Apresentamos vários projetos de revisão de gastos. Ele autorizou dois pacotes, sem cortar políticas públicas, que foram absolutamente desidratados pelo Congresso. Eu não preciso cortar uma política pública que está sendo eficiente para fazer o dever de casa. O problema é o Congresso aumentar gastos. As pautas-­bomba estão surgindo de quem? Quando a gente fala em limitar salários dos servidores, acabar com penduricalhos, diminuir as emendas parlamentares, o Congresso não leva adiante. Hoje, a maior fonte de dinheiro que não entra nos cofres públicos é das renúncias fiscais, quase 600 bilhões de reais por ano. A maioria tem que permanecer, mas uma parte pode ser cortada porque não atende mais ao interesse público.

O que fazer para equacionar isso? Para reduzir a dívida são necessários dois fatores. O país não pode crescer menos de 2,5% daqui para a frente. Com a reforma tributária que fizemos, isso será possível, assim que se acomodarem algumas questões, como a do preço do petróleo, da guerra. Mas tem o outro lado da moeda, que é combater fraudes, como a gente fez, e otimizar as despesas. É possível revisar gastos públicos, unificar políticas públicas e impedir que o Congresso lance despesas sem saber de onde virá o dinheiro.

A senhora foi senadora e depois ministra. Percebeu alguma dificuldade maior neste governo com o Legislativo? Eu senti foi uma piora nos quadros do Congresso. São Paulo, por exemplo, sempre emprestou os melhores nomes para o Senado, como Franco Montoro, Mario Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Marta e Eduardo Suplicy, entre outros. Hoje não há ninguém com esse tamanho representando o estado em Brasília.

Quais são os principais problemas do Congresso? A maioria está com uma visão equivocada de que resolver os problemas do Brasil é falar da pauta de costumes, de armas nas mãos da população, de desmatamento desenfreado. E olha que eu sou do agronegócio, mas entendo que, sem sustentabilidade, não colocamos comida na mesa do povo, não exportamos nossos produtos. E tem a corrupção, que está virando uma chaga que precisa ser combatida. Um exemplo são as emendas parlamentares. Eu fui candidata à presidência do Senado em 2021 contra o orçamento secreto. Acabou a prática, por que a Justiça exigiu, mas o que surgiu depois? As emendas de relator, as emendas Pix, as emendas sem transparência e sem autoria. Não é para fazer casa, reformar uma escola. É para pagar shows milionários, e metade desse dinheiro vai sendo pingado no bolso dos atravessadores, inclusive políticos.

"Eu e Lula temos muitas coisas distintas, muitas divergências, mas o que nos une é infinitamente maior. Do lado de lá, eu não tenho identidade com nada. E política é fazer escolhas"


Qual sua avaliação sobre o trabalho dos parlamentares em temas como a segurança, que é hoje uma das preocupações principais dos eleitores? O crime organizado está se infiltrando no Congresso. Hoje temos PCC, Comando Vermelho e organizações financeiras criminosas querendo eleger parlamentares ou, quando não, querendo comprar parlamentares. No caso do Master, falou-se em cartões de crédito black, com limites de 300 000, 400 000 reais, entregues a autoridades em Brasília. Quem são essas autoridades? Deputados? Senadores? Membros do Judiciário? Do Executivo? Isso é um escárnio.

Um dos filhos do presidente, Fábio Luís, o Lulinha, e o ex-assessor Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, são suspeitos de envolvimento com investigados no escândalo do INSS. Isso pode impactar a campanha? A Polícia Federal tem autonomia. Está investigando o caso do INSS, o caso do Banco Master, o possível tráfico de influência. Do lado de lá, o pai do candidato da oposição mudou o superintendente no Rio e trocou o ministro da Justiça quando começaram a surgir denúncias contra a família Bolsonaro. As coisas estão aparecendo hoje porque a PF tem autonomia, e tem que ter mesmo. Ninguém precisa ser prejulgado. Na democracia, todos têm direito à ampla defesa. Mas todo mundo que exerça a função pública tem que ter a vida toda transparente.

Qual o balanço que a senhora faz da sua guinada política, que foi da centro-direita para uma aliada de Lula e da esquerda. Se arrepende de algo? De forma alguma. Faria tudo de novo. Porque as urnas não levaram dois democratas ao segundo turno daquela eleição, só levaram um. Sem democracia, eu não tenho condições de lutar pelos direitos sociais, pelos direitos das mulheres, pelo direito das crianças, pelo direito do Brasil ao futuro. Sem democracia, não temos nada. E não só a democracia estava em risco, mas a soberania nacional também. Eu e Lula temos muitas coisas distintas, muitas divergências, mas o que nos une é infinitamente maior. Do lado de lá, eu não tenho identidade com nada. E política é isso, você estar do lado certo da história. E política é fazer escolhas.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/simone-tebet-faria-tudo-de-novo/