Rodovia Régis Bittencourt  Divulgação/Arteris |
Análise: Régis Bittencourt começa nova concessão com problemas antigos

Análise: Régis Bittencourt começa nova concessão com problemas antigos

EPR venceu o leilão da rodovia nesta quinta-feira (23); apesar da troca de concessionária, desafios históricos da permanecem


O leilão da Régis Bittencourt foi marcado por propostas agressivas das empresas interessadas em assumir um dos principais corredores logísticos do país. Mas, apesar da troca de concessionária, a rodovia seguirá convivendo com problemas históricos que ainda não encontraram solução definitiva.

O discurso é de que o novo contrato trará mais segurança viária e reduzirá o número de acidentes. Na prática, porém, ainda há poucos mecanismos capazes de entregar esse resultado no curto prazo.

Essa preocupação, inclusive, foi levantada pelo TCU (Tribunal de Contas da União) durante a análise da repactuação contratual entre a Arteris e o governo federal. Ao aprovar o acordo, o tribunal condicionou a operação à apresentação de explicações técnicas sobre a ausência de intervenções em trechos com elevado índice de acidentes.

Na ocasião, o ministro Walton Alencar também alertou que a postergação de obras consideradas "essenciais para a segurança viária" representava um dos principais riscos do novo contrato.

Em entrevista à CNN, o CEO da EPR, José Carlos Cassaniga, afirmou que as principais obras de ampliação, como a implantação de terceiras faixas, deverão começar em 2029 - no terceiro ano da concessão, prazo normalmente adotado nos contratos rodoviários.

O problema é que a Régis Bittencourt carrega uma realidade que talvez não permita esperar tanto tempo. Conhecida há décadas como "Rodovia da Morte", a BR-116 ainda demanda intervenções estruturais, como vias marginais, passarelas, novos túneis e correções de traçado - mudanças em sua maioria em áreas ambientalmente sensíveis, o que tende a alongar ainda mais sua execução.

Durante a análise da repactuação, o TCU também chamou atenção para a situação da Serra do Cafezal. Mesmo após os investimentos previstos, diversos segmentos continuarão operando em nível de serviço "D", classificação que, segundo o Manual do DNIT, representa fluxo instável, com motoristas permanecendo retidos em filas por até 80% do tempo.

Em uma rodovia marcada por acidentes frequentes, deslizamentos de encostas e congestionamentos quilométricos, seria esperado um esforço maior para que a repactuação incorporasse soluções mais robustas para esses problemas históricos. Somadas todas as interrupções, a Régis Bittencourt permaneceu interditada por 52 dias ao longo do ano passado.

É verdade que o novo contrato prevê que a concessionária elabore estudos para novos traçados e soluções capazes de reduzir acidentes. O problema é que esse tipo de projeto demanda tempo até sair do papel.

Também é preciso reconhecer que adiar novamente o leilão talvez não fosse uma alternativa viável. A renegociação entre Arteris e Governo Federal foi longa, complexa e custosa para ambos os lados.

Ainda assim, iniciar uma nova concessão carregando praticamente os mesmos gargalos pode fazer com que o governo e a população tenham de lidar novamente com problemas que poderiam ter sido enfrentados de forma mais profunda durante a remodelagem do contrato.

Apetite pelo corredor logístico

Se a nova concessão começa cercada de desafios, o interesse do mercado mostrou que a rodovia desperta forte competição.

A Arteris, entretanto, deu sinais claros de que não pretendia permanecer na administração da via. A empresa apresentou uma proposta de apenas 0,01% de desconto tarifário, o percentual mínimo exigido pelo edital. Movimento semelhante já havia sido observado no leilão da Fernão Dias, realizado no fim de 2025.

Nos bastidores, a leitura é de que a concessionária busca reduzir sua exposição a ativos considerados estressados, que acumularam prejuízos financeiros e desgaste operacional ao longo dos últimos anos. A estratégia também abriria espaço para a companhia voltar a disputar novos projetos em condições mais favoráveis.

Em nota, a Arteris afirmou que a disciplina financeira é um dos pilares da companhia, destacou a redução de custos registrada no primeiro trimestre de 2026 e disse permanecer otimista com o ambiente institucional do governo federal, avaliando a participação em futuros projetos.

O leilão da Régis Bittencourt é resultado justamente da repactuação contratual firmada entre a Arteris e a União.

Na disputa, repetiu-se praticamente o mesmo cenário observado na concessão da Fernão Dias: EPR, Motiva e Arteris disputaram um dos principais corredores logísticos do país. Desta vez, porém, quem levou a melhor foi a EPR.

No leilão da Régis Bittencourt, a EPR venceu ao oferecer 22,53% de desconto sobre a tarifa de pedágio, percentual próximo do limite que o mercado considera financeiramente saudável, em torno de 27%, o que pode gerar pedidos de reequilíbrio contratuais no futuro, tendo em vista as complexidades da rodovia.

Segundo um interlocutor ouvido pela CNN, a estratégia da EPR foi justamente apresentar uma proposta suficientemente agressiva para evitar que a disputa avançasse para o viva-voz, etapa em que a Motiva costuma demonstrar maior capacidade financeira. A Motiva apresentou desconto de 12%.

Pelas regras do leilão, a disputa só seguiria caso os valores apresentados pelas outras proponentes tivessem uma diferença de mais de 20% ou de 5 pontos percentuais - o que abrangessem mais empresas, nesse caso o segundo cenário. Ou seja, para que o viva-voz fosse uma realidade a proposta da Motiva precisaria ter sido de no mínimo 17,53% de desconto.

O interesse das duas empresas faz sentido do ponto de vista estratégico. A EPR já possui três concessões no Paraná e amplia sua presença na região. A Motiva, por sua vez, depois de deixar o setor aeroportuário, voltou a concentrar investimentos em rodovias e hoje administra duas das principais concessões do país que também cortam São Paulo: a Via Dutra e a Fernão Dias.

CNN Brasil
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/jenifer-ribeiro/infra/analise-regis-bittencourt-comeca-nova-concessao-com-problemas-antigos/