Discurso de confronto dos extremos não explica permanência de Lula e de seu partido no centro da política
Mario Rosa
Uma mentira repetida 1.000 vezes torna-se verdade. Era o mantra de Joseph Goebbels, mas a história mostrou que ainda assim a mentira continuou sendo mentira e a verdade, verdade -embora a história seja contada pelos vencedores. Mas essa é outra discussão. Repita-se 1.000 vezes o último modismo -conceito importado do além-mar- de que o Brasil vive hoje uma polarização com o PT em 1 dos polos. Só que basta olhar a própria história desde a redemocratização da Nova República para constatar que essas adaptações estilísticas podem soar sofisticadas, mas não encontram base numa análise fria dos fatos. O Brasil não vive uma polarização: vivemos mais 1 capítulo de algo que no futuro poderá se chamar "Era Lula" ou "Era PT" -provável e mais certamente a 1ª hipótese.
O fato é que nunca antes na história deste país houve um fenômeno político e eleitoral como o que hoje tentam engarrafar nessa "polarização". Desde 1989 -ou seja, desde a 1ª eleição direta depois do fim do regime militar- o PT foi o 1º ou o 2º colocado em todas, todas as eleições presidenciais. Isso não é algo trivial. Em 2026, completa-se um ciclo de 37 anos, quase 4 décadas de predomínio do PT como protagonista absoluto e sem nenhum outro rival à altura na disputa pelo mais alto posto de poder do país. Nunca houve nada parecido. Similar, somente D. Pedro 2º em seu longo 2º império, mas não havia disputa eleitoral. Logo, não conta.
Na República, já são quase 40 anos em que os brasileiros são chamados a fazer a mesma escolha de sempre: PT ou "não PT"? Tem sido assim nos diferentes ciclos eleitorais e não vai ser diferente no atual. Embrulhar esse fenômeno maior e histórico na microscópica lente da polarização é um simplismo que serve para fomentar debates e entusiasmar conversas. Mas é uma distorção do que mostram os fatos históricos.
Lula, goste-se dele ou não, está há quase meio século no centro do tabuleiro das decisões nacionais. Emergiu como líder das grandes greves do ABC em 1978 e nunca mais perdeu proeminência. Só ganhou. Em 1980, fundou o seu PT. Em 1982, disputou o governo de São Paulo. Em 1986, foi o deputado constituinte mais votado da história, apesar de ter sido contra a atual Constituição cidadã, ele e seu partido -depois assinou a Carta, típico.
O resto é história. Sim, o Lula de 2026 ardilosamente veste a fantasia de candidato de esquerda num contraponto à direita hoje adjetivada como extremista, o que é em si um extremo exagero. Mas política é isso mesmo: ilusionismo, sempre foi. Então, pegam o Lula de "esquerda" de 2026 surfando na onda do que chamam de "polarização" para corroborar a tese de que ela existe. Ora bolas! E as outras ondas que ele já surfou?
Lula foi derrotado em 1989 por Fernando Collor por 1 triz. Era polarização? Não existia nem esse termo, muito menos essa questão. Em 1994, disputou com o símbolo do Plano Real, Fernando Henrique, que venceu no 1º turno. Polarização? Não. Em 1998, Lula surfa numa guinada ao que se poderia chamar de responsabilidade ao colocar o calejado Leonel Brizola como vice (que o chamara de "sapo barbudo" em 1989), na tentativa de parecer menos radical. E perdeu para Fernando Henrique. Ficou em 2º. Ganhou em 2002. Como polarizador? Colocou José Alencar como vice e, na presidência do Banco Central, o deputado tucano e ex-presidente do yankee banco de Boston Henrique Meirelles. Em 2006, com mensalão e tudo, encaçapou e se reelegeu.
Aí veio Dilma 1, Dilma 2 (como mãe do PAC, fazedora e não ideóloga) e mesmo no 2018 antipolítica no auge da Lava Jato, pontuava em 1º lugar e talvez ganhasse se não estivesse preso. Deu Jair Bolsonaro, mas deu também PT em 2º, com Fernando Haddad. Em 2022, Lula veio com o ex-adversário e tucano Geraldo Alckmin de vice para cortejar o centro, e não como radical, não é mesmo? E conquistou o tri. Agora, samba de radical de esquerda no enredo da polarização de araque. O que isso tudo quer dizer é que diminuir Lula a rótulos é tolice. Ele não cabe neles.
Pode ser isso ou aquilo. Pode não ser mais o que já foi, pode ser o pior de todos os Lulas, pode ser o mais experiente, pode ser o mais pálido plágio dele mesmo. Pode ser tudo. Cada um que tenha a opinião que quiser. Agora, não estamos numa eleição polarizada. Estamos em mais uma eleição lularizada, peterizada, como vem sendo há quase 4 décadas. Às vezes, eles perdem, às vezes, ganham. Esse capítulo da história brasileira não terá sido sobre a polarização. Mas sobre o cometa Lula, sobre a "Era Lula" e este ano e os próximos sobre o seu poente. Ponto final.
Poder 360
https://www.poder360.com.br/opiniao/polarizacao-e-bravata-ha-37-anos-o-brasil-escolhe-o-pt-ou-o-nao-pt/





