Vozinha subiu ao cume do Monte Cara

Vozinha subiu ao cume do Monte Cara

Germano Almeida colocou o Monte Cara a ver o Mundo; Vozinha fez o inverso. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal em A BOLA


Há histórias que só se compreendem quando se olha para o lugar de onde vieram. Como a história de Vozinha. Uma história que se entende quando se olha o Mindelo. Uma cidade que o genial escritor Germano Almeida transformou em personagem principal do livro Do Monte Cara Vê-se o Mundo. Os mindelenses cresceram sob o seu olhar silencioso, vendo partir navios, regressar emigrantes e nascer sonhos que muitas vezes pareciam demasiado grandes para uma ilha pequena. Mas os mais sonhadores, os que insistem em ver o Mundo do cume do Monte Cara sentem a brisa a transportar as palavras de Nélson Mandela: «Tudo parece impossível até ser feito.»

Vozinha, no cume do Monte Cara, acreditou. Durante décadas, a ideia de ver Cabo Verde num Campeonato do Mundo pareceu impossível. A ideia de ver um guarda-redes cabo-verdiano travar uma potência mundial parecia impossível. A ideia de um homem chegar ao maior palco do futebol aos 40 anos parecia impossível. Até acontecer.

Vozinha foi o estilista e o alfaiate que desenhou e cortou o fato que hoje veste. Um autodidata que aprendeu sozinho sobre ser-se guarda-redes. Que só chegou ao profissionalismo com 25 anos. Que tem feito uma carreira digna, mas longe dos grandes campeonatos, dos maiores clubes, dos holofotes. E quando entrou em campo para enfrentar a Espanha, entrou com 40 anos de vida vivida. E quando voou num incrível golpe de rins para evitar o golo de Oyarzabal vi uma Fénix, na certeza de que nada nem ninguém trava um encontro marcado com o destino. E emocionei-me. Como se emocionou Vozinha.

Feliz quem pode, ao fim de uma jornada gloriosa, exclamar. «Valeu a pena». Por ele e pelos avós, que o criaram. Por ele e pela mãe, que devido a problemas de visto não conseguiu estar no estádio a babar-se de orgulho pelo seu eterno filhinho.

Cada defesa de Vozinha era mais do que uma defesa. Era uma resposta. Uma resposta às suas próprias questões. Uma resposta a todos os que se escudam na palavra impossível. É tão triste ter-se medo de se ser feliz. George Eliot tem razão. «Nunca é tarde para ser aquilo que poderíamos ter sido». Há frutos que só ficam doces depois de muitos verões.

Pensando bem, a história de Vozinha não é apenas sobre vitória. Nem sequer é apenas sobre heroísmo. É também sobre dignidade. A dignidade de quem valida a carreira e a vida mais pelos passos dados a cada instante do que pelos palcos pisados. Alguém que sabe até que para cada herói existem milhares que se ficam pelo abnegado esforço sem nunca pisarem os palcos do sonho. Theodore Roosevelt daria a estes que têm o mérito e as virtudes do «homem na arena».

Há cerca de um ano entrevistei Vozinha. Emocionou-se a falar de Cabo Verde. Todos os amigos e conhecidos que temos em comum me dizem o melhor sobre o guarda-redes cabo-verdiano. Fico feliz por saber que a felicidade bateu à porta de quem a merece. Mas igualmente de quem a reconheceu e lhe abriu a porta.

No Ilhéu dos Pássaros contam-se histórias de resistência. E sobre a baía do Mindelo, o Monte Cara assiste a tudo com absoluta serenidade. Sei que Germano Almeida tem razão: do Monte Cara vê-se o Mundo. E o Mundo olha agora de volta para aplaudir um filho do Monte Cara.

A Bola
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