Vila Belmiro é a casa do Santos Futebol Clube - Foto: Divulgação |
A SDC Sports está comprando a SAF do Santos. Entrevistamos os novos donos

A SDC Sports está comprando a SAF do Santos. Entrevistamos os novos donos

Aporte financeiro, tratamento de dívida, o futuro de Neymar, a oportunidade das ligas, o próximo título


Por Maria Luíza Filgueiras - São Paulo

A SDC Sports está prestes a virar a nova dona do centenário Santos. Será o primeiro investimento em um clube de futebol da firma recém-criada por um trio com currículo extenso no esporte. O Pipeline entrevistou Michael Lipman, Jesse Fioranelli e Diego Garcia para entender o que os atraiu no time paulista, qual será a estratégia para novos tempos de glória (leia-se títulos, considerando que o último na primeira divisão foi há uma década e, nesse meio tempo, caiu e saiu da série B) e a visão para o futebol brasileiro.

O contrato está nas tratativas finais e pode ser assinado ainda nesta sexta-feira, após cinco meses de diligências - o que faz a SDC evitar tratar ainda dos detalhes financeiros. O Pipeline apurou que o negócio envolve investimento de até R$ 1 bilhão por 80% da SAF e assunção de mais de R$ 1 bilhão em dívidas. O banco Rothschild é assessor financeiro da SDC e o Santos é assessorado pela XP.

A companhia enxerga o Santos como um ativo global subcapitalizado, com uma tese de valorização que combina futebol, formação de jogadores, marca - e estabilidade financeira. "Títulos vêm depois da estabilidade. Eles não a precedem", diz Lipman. Para os gestores, o Brasil deveria estar entre as cinco maiores ligas do mundo e hoje existe uma distância entre a qualidade do futebol brasileiro e o valor econômico que a estrutura atual consegue capturar.

Mas, segundo os sócios, a tese do Santos se sustenta mesmo sem uma liga única no futebol brasileiro - mas, se ela vier, adicionaria valor. A família Teixeira e a família de Neymar não participam da negociação. Os três se complementam entre esportes e finanças.

Lipman, sócio-diretor da SDC Sports, tem 25 anos de experiência em mídia esportiva, estratégia, operações e infraestrutura. Trabalhou por uma década na NFL, liderou a entrega da infraestrutura da UEFA Euro 2012 e assessorou clubes como Liverpool, Roma e Inter de Milão. Também participou de transações no setor, incluindo a aquisição do Como FC pela família Hartono.

Fioranelli é o diretor de futebol da SDC, com 20 anos em estratégia esportiva, atuando no mercado de transferências, scouting e transformação de clubes. Foi executivo do Lazio, Roma, Milan, Al Nassr e San Jose Earthquakes, conquistando uma Copa da Itália pela Lazio e chegando à semifinal da Liga dos Campeões com o Milan. É diretor esportivo credenciado pela Federação Italiana (FIGC) e co-chair do Comitê de Desenvolvimento de Jogadores da Major League Soccer (MLS).

Já Garcia é financista do grupo. Cofundador da St. Dominique Capital, gestora que controla a SDC Sports, fez carreira na Riverstone Holdings, gestora com US$ 45 bilhões em ativos. A St. Dominique também tem como acionista um sobrenome conhecido na Colômbia, mas eles esclarecem o que tem sido uma confusão comum no mercado sobre a composição societária. A seguir, com exclusividade, a primeira entrevista da SDC sobre o assunto.

Por que o Santos? O que fez o clube se destacar em relação a outras oportunidades de investimento?

Lipman: O Santos é um dos clubes mais tradicionais do mundo do futebol, o clube que deu Pelé ao esporte e que, mais tarde, moldou o início das carreiras de jogadores como Neymar e Rodrygo. Poucas academias em qualquer lugar do mundo produziram um impacto tão consistente no esporte. Essa história, combinada com a marca, a tradição da base e a torcida, dá ao Santos a base necessária para voltar a competir no mais alto nível, desde que haja a estrutura adequada por trás disso. Não começamos com o objetivo de comprar um clube. Partimos da busca por uma instituição na qual capital paciente pudesse fazer uma diferença geracional, e o Santos foi a resposta mais clara a essa pergunta.

Quais são os termos financeiros do acordo? Quanto será usado para pagar dívidas e quanto será destinado a investimentos no clube e nos jogadores?

Lipman: A forma como o capital será estruturado e alocado é algo que acreditamos que deve ser tratado primeiro com o Conselho Deliberativo do Santos e seus membros, por meio do próprio processo do clube, e não com a imprensa. Essa conversa já está em andamento. O que podemos dizer é que estabilizar as finanças do clube e investir em seu futuro não são objetivos separados em nosso plano. São o mesmo plano.

Como o investimento está sendo estruturado? Ele será feito por meio de um fundo dedicado ou de um veículo de propósito específico? O capital já foi comprometido ou vocês ainda estão em processo de captação?

Garcia: Estamos criando uma estrutura dedicada para este investimento, lastreada em capital institucional de longo prazo. Não vamos entrar publicamente nos detalhes dessa estrutura antes de apresentá-los diretamente ao Conselho.

Quem são os investidores por trás dessa transação? Eles já têm exposição a clubes de futebol ou outras franquias esportivas em mercados globais?

Garcia: A SDC Sports é financiada por capital sofisticado de terceiros, de longo prazo e paciente, comprometido em apoiar operadores globais de primeira linha no futebol, combinado com expertise local. As raízes do sucesso do Santos começam no Brasil. Michael Lipman, Jesse Fioranelli e Diego Garcia trazem, em conjunto, décadas de experiência operando no mais alto nível do futebol global, e cada uma dessas experiências nos ensinou a mesma lição: o sucesso duradouro depende da incorporação de expertise local para liderar as operações do dia a dia à medida que o projeto amadurece.

Também queremos deixar claro que o Santo Domingo Group, incluindo a Quadrant Capital Advisors e a Valorem, não é investidor nem tem qualquer vínculo com a St. Dominique Capital ou a SDC Sports. Lauren Santo Domingo, em sua capacidade pessoal e não como representante de qualquer entidade do Santo Domingo Group, é cofundadora da St. Dominique Capital, controladora da SDC Sports.

Antes de decidir pelo Santos, vocês avaliaram outros clubes no Brasil ou em outros lugares? O que, em última instância, fez a balança pender a favor do Santos?

Fioranelli: Avaliamos amplamente oportunidades no Brasil e no exterior antes de chegar ao Santos. O que o diferenciou foi a combinação de história, uma academia que liderou o futebol brasileiro por gerações e uma torcida tão grande que é relevante não apenas comercialmente, mas também culturalmente, no Brasil e internacionalmente. Pouquíssimos clubes no mundo têm as três coisas.

O Santos é uma das marcas mais icônicas do futebol mundial - o clube que produziu Pelé, como vocês já citaram. Além do apelo emocional, como vocês pretendem monetizar essa história e traduzi-la em valor da empresa e TIR?

Lipman: Não estamos interessados em extrair valor da história do Santos; estamos interessados em investir a partir dela. Para nós, tradição não é uma linha do balanço patrimonial, é a razão pela qual o clube tem hoje um alcance comercial que a maioria dos clubes de seu porte não tem. Construídos sobre uma base estável, esses valores se acumulam. Essa é a tese. Os temas específicos nos quais pretendemos melhorar o clube são assuntos que queremos discutir diretamente com o Conselho. É ali que esses detalhes devem ser tratados primeiro.

O Santos passou por rebaixamento e dificuldades financeiras nos últimos anos. Qual é a tese de turnaround de vocês? O que precisa mudar para que o clube produza talentos de elite de forma consistente e dispute grandes títulos?

Lipman: Rebaixamento e dificuldades financeiras não acontecem porque um clube esquece como produzir bons jogadores - a academia do Santos continuou fazendo isso. Eles acontecem quando o lado do futebol e o lado empresarial deixam de se reforçar mutuamente, quando necessidades de caixa de curto prazo começam a ditar decisões de longo prazo. Nosso plano começa com estabilidade e disciplina financeira, paga o que é devido, investe na base e na infraestrutura em um cronograma realista e deixa os profissionais do futebol administrarem o futebol. Títulos vêm depois da estabilidade. Eles não a precedem.

Neymar ou membros de sua família tiveram algum papel na aproximação para viabilizar essa transação ou facilitar as conversas entre as partes? E a família Teixeira?

Lipman: Neymar não esteve envolvido neste negócio. A ligação dele com o Santos é algo especial, e nós respeitamos isso demais para misturá-lo a uma transação. Quando chegar o momento certo, teremos prazer em nos conhecer - essa é uma conversa que vai além de qualquer negócio. A família Teixeira também não está envolvida na facilitação da transação; Marcelo está liderando o processo pelo lado do clube, como seria esperado em função de seu papel como presidente.

O Santos ainda deve dinheiro a Neymar. Como vocês pretendem lidar com esse passivo como parte da transação? Ele será reestruturado, liquidado ou tratado separadamente do investimento?

Lipman: Obrigações legadas com jogadores, incluindo Neymar, fazem parte de um processo. Esse processo tem seu próprio marco legal e cronograma, e não seria apropriado que caracterizássemos como qualquer credor específico será tratado antes disso. Não estamos em posição de comentar relações individuais com credores, mas quaisquer passivos serão tratados dentro do marco legal e contratual aplicável à transação, sempre buscando soluções transparentes e equitativas para todas as partes interessadas. Resolver essas obrigações de forma justa e duradoura faz parte do que significa estabilidade para este clube.

Qual papel vocês imaginam para Neymar daqui para frente? Mantê-lo como jogador faz parte da tese de investimento ou ele pode ter outra função fora de campo?

Fioranelli: Tendo trabalhado com jogadores de elite, sabemos que a última coisa de que ele e este time precisam agora é de ruído. Neymar significa muito para este clube e para o futebol. Neste momento, seu foco está em liderar o time em campo - e é exatamente onde ele deve estar. Qual será seu papel além disso é uma conversa para o momento certo, e não temos pressa em forçá-la. Essas conversas funcionam melhor quando nos afastamos do ruído, colocando a escuta em primeiro lugar. Se fizermos isso da maneira certa, acreditamos que existe uma forma real de apoiar o Santos no longo prazo - e não apenas neste momento.

Olhando para os próximos cinco a 10 anos, quais são os principais vetores de criação de valor? O potencial de valorização é impulsionado principalmente pela negociação de jogadores, receitas comerciais ou melhorias operacionais e no estádio?

Lipman: É uma combinação, e quem disser que se trata de apenas um vetor - negociação de jogadores, direitos de mídia ou estádio - está simplificando demais. O desenvolvimento de jogadores é importante porque essa é a tradição da base sobre a qual o sucesso deste clube foi construído. As receitas comerciais e de patrocínio são importantes porque a marca Santos alcança mais longe do que sua posição na liga faria supor. A infraestrutura é importante porque não é possível competir em um centro de treinamento construído para outra era. Estamos projetando o clube funcionando razoavelmente bem em todas essas frentes ao mesmo tempo, algo mais raro do que parece.

Algumas transações de SAF no Brasil, como Botafogo e Vasco, acabaram envolvidas em disputas judiciais. Como vocês avaliam o ambiente jurídico e regulatório brasileiro para investimentos em futebol? Esses riscos estão refletidos nos preços dos ativos?

Garcia: Não vamos comentar as situações de outros clubes; não as conhecemos por dentro da mesma forma que seus proprietários as conhecem, e alguns problemas não têm qualquer relação com a estrutura de SAF ou com a regulamentação. É por isso que nossa exposição internacional, nossa experiência diversificada em clubes e países e nossa equipe de gestão local dedicada e especializada no setor farão diferença. No Brasil, de modo geral, o marco legal para essas transações está bem estabelecido, e estruturamos nossa operação especificamente para ser resiliente dentro dele. Precificamos este negócio levando em conta o ambiente jurídico brasileiro, e não apesar dele.

O Brasil ainda não tem uma liga nacional de futebol unificada, e as divergências sobre direitos de mídia sugerem que uma estrutura desse tipo pode estar a anos de distância - se vier a existir. Sua tese de investimento depende da criação de uma liga unificada ou a oportunidade é atraente mesmo no modelo atual?

Fioranelli: Não. Nossa tese para o Santos funciona com a liga da forma como ela existe hoje. Uma estrutura unificada seria positiva para todo o ecossistema, incluindo o Santos, mas não estamos apostando o investimento em uma mudança sobre a qual não controlamos o timing. Se acontecer, será um desenvolvimento fantástico. Se não acontecer, continuaremos construindo valor para este clube.

Se uma liga unificada fosse eventualmente criada, destravaria valor adicional? Isso aumentaria materialmente a atratividade dos clubes brasileiros para investidores institucionais globais?

Lipman: Significativamente, e iríamos além disso. O Brasil produz mais jogadores de elite do que qualquer outro país do mundo e tem uma das maiores bases de torcedores do planeta. Apenas em termos de talento e atenção, deveria ser uma das cinco maiores ligas do mundo, ponto final. Ainda não é, e essa distância entre o que o futebol merece e o que a estrutura atual entrega é exatamente a oportunidade. Uma liga unificada com direitos de mídia competitivos fecha essa lacuna e torna os clubes brasileiros muito mais compreensíveis para o capital institucional global. Nos últimos 30 anos, outras ligas historicamente fragmentadas se beneficiaram significativamente da consolidação em uma estrutura mais forte e unificada, entre elas La Liga, Premier League e Bundesliga. A forma como essas ligas governam e promovem o esporte é resultado de seu crescimento acumulado, bem como de sua dominância competitiva e financeira. Nos próximos anos, a Série A brasileira terá uma oportunidade de seguir os passos delas como nenhuma outra liga das Américas do Norte ou do Sul.

Por que vocês acreditam que este é o momento certo para investir no futebol brasileiro? Quais ineficiências estruturais ou distorções de mercado criam oportunidades para investidores internacionais?

Garcia: O capital institucional global passou a última década praticamente todo voltado para o futebol europeu. O Brasil produz mais talentos de elite do que quase qualquer outro lugar do mundo, e seus clubes são subvalorizados e subcapitalizados, não porque o futebol seja pior, mas porque as estruturas de propriedade e governança historicamente dificultaram o acesso de capital paciente e profissional. A SAF está mudando isso. Estar na vanguarda dessa mudança, com um clube único como o Santos, é a oportunidade - e não uma alternativa para contorná-la.

Pipeline
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