A política externa exige maturidade, por Miguel Relvas

A política externa exige maturidade, por Miguel Relvas

Miguel Relvas*


Há momentos na vida de um país em que as escolhas de política externa deixam de ser meramente circunstanciais e passam a definir o seu posicionamento estratégico no mundo. A relação de Portugal com o Brasil é, indiscutivelmente, um desses casos. E é por isso que considero um erro histórico - sim, um erro histórico - a atitude de confronto político com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Portugal não pode olhar para o Brasil, para Angola, ou para Moçambique com ligeireza nem com sobranceria. Não estamos a falar de parceiros quaisquer. No caso do Brasil estamos a falar da maior economia da lusofonia, de uma das dez maiores economias mundiais. de um país com peso global crescente e de uma relação que assenta em séculos de história comum, de língua, de cultura e de interesses partilhados. Fragilizar este eixo por razões conjunturais ou por impulsos ideológicos é, no mínimo, um sinal de falta de visão estratégica.

Não se trata de concordar com todas as posições do Presidente Lula, nem de abdicar de princípios. Trata-se, isso sim, de compreender que a política externa exige maturidade, sentido de Estado e, sobretudo, pragmatismo. Portugal ganha mais em influenciar do que em hostilizar, em dialogar do que em confrontar.

Assistimos, infelizmente, a um debate público cada vez mais dominado por lógicas internas, por ciclos mediáticos curtos e por uma tentação permanente de transformar divergências em conflitos. Essa abordagem pode render aplausos imediatos, mas compromete interesses duradouros. E na política externa, o curto prazo paga-se caro.

Portugal tem muito a ganhar com uma relação forte e estável com o Brasil - do ponto de vista económico, empresarial, diplomático e até geopolítico. Num mundo cada vez mais fragmentado, onde as alianças são decisivas, não faz sentido enfraquecer uma das mais naturais e estratégicas ligações que temos.

A história julga, e julga com distância. E é à luz dessa distância que devemos agir hoje. Porque há decisões que não são apenas políticas - são estruturais. E errar aqui é comprometer o futuro.

*resumo da responsabilidade do 24 Horas de intervenção de Miguel Relvas no debate 'CNN Fim de Tarde' de 20 de Abril

CNN Portugal
https://cnnportugal.iol.pt/videos/esta-atitude-de-atacarmos-o-presidente-lula-e-um-erro-historico-para-portugal/69e67f2d0cf27f6588a693ea