Em nota, corporação disse que policiais fizeram 'procedimento de reanimação' e o encaminharam a um hospital
Por Eduardo Gonçalves, O Globo - Brasília
Apontado pela Polícia Federal como responsável por monitorar e planejar ataques contra adversários do banqueiro Daniel Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário", tentou se matar na tarde desta quarta-feira após ser preso, segundo informou a corporação. Ele foi um dos alvos da Operação Compliance Zero, que apura a atuação de um grupo ligado ao Banco Master e levado para a superintendência do órgão em Belo Horizonte.
Em nota, a PF informou que Mourão "atentou conta a própria vida enquanto se encontrava sob custódia" na superintendência da corporação na capital de Minas. Policiais federais que estavam no local prestaram socorro, iniciando procedimentos de reanimação e acionando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). "A equipe médica deu continuidade ao atendimento no local e o custodiado será encaminhado a rede hospitalar para avaliação e atendimento médico", diz a corporação.
A PF comunicou o ocorrido ao gabinete do ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF), e disse que entregará todos os registros em vídeo que demonstram a dinâmica do ocorrido.
Procurada, a defesa de Mourão foi pega de surpresa pela informação e disse que um advogado está se deslocando agora para a delegacia da Polícia Federal em Belo Horizonte. Mais cedo, segundo a defesa, ele recorreu ao direito de ficar em silêncio durante o seu depoimento à PF. Ele passaria por audiência de custódia nesta quarta-feira.
A investigação aponta que Mourão comandava uma estrutura informal chamada "A Turma", utilizada para realizar atividades de vigilância, obtenção de informações e monitoramento de pessoas ligadas às investigações ou críticas ao grupo. Os investigadores apontam que ele recebia R$ 1 milhão por mês para prestar tais "serviços ilícitos". Procurada, a defesa de Mourão não comentou e disse que só se manifestaria sobre a prisão após ter acesso aos autos do inquérito.
De acordo com os investigadores, Mourão realizava consultas em sistemas restritos de órgãos públicos, utilizando credenciais de terceiros para acessar bases de dados ligadas a instituições de segurança e investigação. A Polícia Federal afirma que houve acessos indevidos a sistemas da própria PF, do Ministério Público Federal e até a bases internacionais.
Na decisão que mandou prender Mourão e Vorcaro, além de outros alvos da operação, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou haver indícios de que o banqueiro, numa troca de mensagens com Mourão, determinou que se forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para "prejudicar violentamente" o colunista do GLOBO Lauro Jardim. O objetivo, diz Mendonça, era, a partir do episódio, "calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados". Em nota, o jornal O GLOBO repudiou as iniciativas criminosas contra Lauro Jardim.
Desde 2021, Mourão é réu em uma ação movida pelo Ministério Público de Minas Gerais que apura indícios de delitos como lavagem de dinheiro, organização criminosa e crime contra a economia popular.
Segundo as investigações, Mourão e outros indiciados montaram um esquema de pirâmide financeira para atrair investidores de todo o Brasil. Entre junho de 2018 e julho de 2021, ele movimentou R$ 28 milhões em contas bancárias de empresas ligadas a ele.
Ainda de acordo com as investigações, Luiz Phillipi Mourão atuava como agiota antes de fazer parte do esquema de pirâmide. No fim do ano passado, o setor de inteligência da Polícia Militar de Minas Gerais fez uma análise no celular apreendido do acusado e apontou que ele exercia uma liderança importante na organização criminosa investigada.
Sobre esse caso, no processo, a defesa do acusado afirma que as provas obtidas pelas autoridades foram desprovidas de autorização judicial, entre outras nulidades.
"Os autos ainda revelam indícios de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) tenha diligenciado perante as instituições financeiras para ter acesso a informações dos réus meio das quais foram obtidos novos elementos para a evolução das investigações, malgrado inexistente decisão para a quebra de sigilo bancário. Essas movimentações investigativas não eram do conhecimento da Autoridade Policial, tampouco houve requerimento dirigido ao juízo nesse sentido", diz o pedido da defesa de Phillipi.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/03/04/responsavel-por-monitorar-adversarios-de-vorcaro-sicario-tenta-se-matar-apos-ser-preso-pela-pf.ghtml





