Presidente do partido diz que legenda ainda não tomou decisão sobre disputa presidencial, se queixa de assédio a Tarcísio de Freitas e vê como improvável um acordo com Lula
Por Victoria Azevedo e Lauriberto Pompeu - Brasília
O presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), disse em entrevista ao GLOBO que o PL e o pré-candidato à Presidência do partido, Flávio Bolsonaro, tomam decisões que distanciam uma possibilidade de aliança nacional com a sigla nas eleições deste ano. O dirigente partidário declarou que o partido ainda não tomou nenhuma decisão sobre quem vai apoiar para presidente, mas reclamou de costuras feitas por Flávio e o PL que atrapalham os planos eleitorais do Republicanos.
Pereira se queixou, por exemplo, das tentativas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de tentar filiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e tirá-lo do Republicanos, e também criticou a decisão, articulada por Flávio, de definir o palanque no Rio de Janeiro sem incluir o Republicanos em nenhuma vaga da chapa.
- Se eles (candidatura de Flávio) querem meu apoio, você acha que com essa pressão aproxima ou distancia? Com a decisão unilateral que eles tomaram no Rio? - disse.
Apesar das queixas e de o Republicanos ter um representante na Esplanada de Lula, Pereira diz considerar improvável uma coligação formal com o petista nas eleições. Ele também criticou o desfile da escola de samba que homenageou o presidente na Marquês de Sapucaí, no Rio, e falou que o Planalto deve estar "arrependido" diante da repercussão negativa com o segmento evangélico.
Ainda há possibilidades do governador Tarcísio de Freitas ser candidato à Presidência neste ano?
A cada dia que passa está mais distante, mas a política é como nuvem. Até 4 de abril muita coisa pode acontecer, mas é importante deixar claro que Tarcísio jamais irá sem o apoio do Bolsonaro, o que eu acho que com esses números [de Flávio Bolsonaro nas pesquisas] fica mais difícil deles desistirem.
Qual será a posição do Republicanos nas eleições à Presidência?
Essa decisão vai ser tomada lá para o final de abril, maio, reunindo a bancada que ficou após a janela com os membros da Executiva e os senadores. Não tem por que decidir isso agora, até porque as convenções serão em julho e agosto.
Quem o sr. acha que é o favorito hoje para vencer a eleição presidencial de 2026? Flávio ou Lula?
Vai ser uma eleição extremamente disputada, vai ser muito próximo um do outro, não só pela pesquisa que saiu hoje (levantamento do instituto Atlas, que mostra empate entre Lula e Flávio no segundo turno), mas pelo cenário de polarização mesmo.
O desempenho de Flávio nas pesquisas pode trazer o Republicanos para a coligação dele?
Nós vamos conversar no momento certo, dependendo do sentimento da maioria do partido. Ele me procurou no dia que lançou a pré-candidatura para jantar na segunda seguinte, quando ele jantou com os demais colegas de outros partidos. Eu não pude estar presente e no dia falei para ele: "Quando eu chegar amanhã em Brasília, eu te mando uma mensagem pra gente conversar, estou à disposição para conversar". E mandei a mensagem e ele não respondeu. Quem tem que buscar os apoios é ele.
Mas a pesquisa que mostra Flávio em empate com Lula facilita uma aliança?
Essa pesquisa não, mas as pesquisas de final de abril, de maio, poderão interferir. Acho que o segundo turno será Lula e Flávio Bolsonaro. Se o Bolsonaro disser que o candidato dele é qualquer pessoa, ela já sai com 20%. E aí tem 15% de antipetismo, já dá 35%. Então ele vai pro segundo turno. Eu não vejo uma uma terceira via crescendo ao ponto de chegar no segundo turno.
Então o Republicanos vai apoiar um dos dois?
Não sei, vamos esperar. Não vai tirar de mim uma resposta porque não tem resposta.
Quem o Republicanos vai apoiar para governador do Rio? Eduardo Paes ou Douglas Ruas?
No Rio havia uma proximidade com o governador (Cláudio Castro, do PL) mas agora nós vamos ter que ver como é que vai ficar. Ele (Eduardo Paes, do PSD) quer falar o tempo todo conosco. Gosto dele, tenho muito boa relação com ele.
O problema com o PL no Rio foi a falta de espaço para o Republicanos na chapa?
Vai ficar PL para governador e para o Senado, PP para vice, e a outra vaga no Senado para o União. Então, está resolvido. Não precisa do Republicanos.
Há setores do Republicanos que são próximos do PT em alguns estados e falaram que vão fazer palanque para Lula em qualquer cenário, mesmo que o Republicanos esteja coligado com um candidato de direita. Também há outros setores próximos do bolsonarismo. O Republicanos vai liberar essas alianças?
Vamos aguardar. Em 2022, o partido apoiou formalmente Jair Bolsonaro para a reeleição e lá em Pernambuco, Silvinho (Silvio Costa Filho, ministro de Portos e Aeroportos) foi liberado pela Executiva para fazer a campanha para o candidato dele (Lula). Agora, eu não sei, é outro cenário.
Gilberto Kassab citou a palavra submissão ao falar da relação de Tarcísio com Jair Bolsonaro. Como vê essa declaração?
Eu não concordo, respeito o Kassab. Todos nós estamos sujeitos a derrapadas, a escorregadas e eu acho que foi uma escorregada dele em dizer que o governador é submisso. Se Tarcísio fosse submisso ao Bolsonaro, ele teria ido pro PL. Porque Bolsonaro disse para mim em 2022 que não abria mão dele e de Luciano Hang no PL. Quantas vezes Bolsonaro e o PL inteiro fizeram pressão para que ele fosse pro PL? Então isso não é submissão, é lealdade.
Eles ainda fazem pressão para Tarcísio ir para o PL?
Estão fazendo.
Acha que há chance de o governador se filiar?
Se eles (candidatura de Flávio) querem meu apoio, acha que com essa pressão aproxima ou distancia? Com a decisão unilateral que eles tomaram no Rio? O presidente do partido Republicanos do Rio, deputado Luís Carlos, e eu como presidente nacional, soubemos pela imprensa que a chapa já estava fechada. Isso aproxima ou distancia?
Há uma disputa entre PL, MDB e PSD pela vice de Tarcísio. Qual o senhor acha que é o melhor caminho?
Pela lealdade do Felício (Ramuth, atual vice), o mais certo era manter e o Kassab já estaria contemplado, já que é do partido dele. Eu acho que a tendência é o que eu vou defender, que é manter a chapa original.
Há alguma negociação para o Republicanos ter a vaga de vice de Lula?
Alckmin é meu amigo pessoal de longuíssima data, da nossa relação lá de São Paulo. Acho muito difícil o Lula não reconduzi-lo como candidato a vice. Não vou pleitear a vice de Lula. Primeiro ponto é esse. Segundo ponto é que a formação do partido, a julgar por hoje, teria muita dificuldade em apoiar Lula formalmente, porque a grande maioria hoje, não sei como é que vai ser a partir de abril, dos diretórios estaduais, da bancada de deputados federais é de um campo de centro direita. Eu não vou dizer que é impossível [apoiar Lula], porque em política não tem impossível. Não vou dizer que nada é 100% decidido, mas é difícil.
O presidente Lula e o governo foram criticados pelo segmento evangélico após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, especificamente a ala dos "neoconservadores", com fantasias de "famílias em conserva". O que o senhor achou do desfile?
Foi muito ruim. A repercussão fala por si só. Eu acho que eles (governo) também ficaram preocupados. Eles devem estar arrependidos, porque se querem mesmo se aproximar desse segmento, está cada vez mais se distanciado.
Ainda é possível o PT se aproximar do segmento evangélico?
Eles vão fazer todo o esforço, para ser pragmático ou para ser mais enfático, incisivo nesse diálogo, mas precisaria defender valores que eles não defendem, então não vão conseguir.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), viveu dificuldades em seu primeiro ano no cargo e recebeu críticas até de seu antecessor, Arthur Lira. Como viu essas dificuldades?
Eu acho que ele foi vítima da pauta e da polarização. As pessoas que estão nos polos às vezes são inflexíveis. E quando você não tem margem nenhuma para flexibilização, aí não tem diálogo, né? Hugo é uma pessoa muito do diálogo, o Arthur era mais, não vou usar uma palavra como truculento, mas ele era mais duro, mais centralizador, mais impositivo. São pessoas que têm perfis diferentes.
Motta já disse que na hora certa irá se posicionar politicamente nas eleições deste ano. O estado dele votou majoritariamente em Lula em 2022 contra Jair Bolsonaro e hoje ele busca apoio do presidente ao seu pai, Nabor Wanderley, que concorre ao Senado. Ele conversa com o senhor sobre esse cenário?
Não, não chegamos a conversar sobre isso ainda. Ele está fazendo um esforço para ter o apoio desse campo para eleição do pai dele para o Senado, mas já está meio precificado. Dificilmente o presidente Lula vai deixar de apoiar o Veneziano (Vital do Rego, atual senador, que tenta a reeleição).
Como o senhor vê as investigações autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal que miram em emendas parlamentares?
Eu prefiro não falar sobre o assunto (emendas parlamentares) porque isso é um assunto que é conduzido pelo presidente da Câmara, ouvindo os líderes. Se algum parlamentar está fazendo mal feito e existe denúncia, tem que ser investigada, apurada e comprovado a participação em casos criminosos, tem que ser punido. E quem conhece melhor as necessidades dos municípios são os parlamentares, não são os ministros.
Há pedidos no Congresso para a instalação de uma CPI que investigue o caso do Banco Master. O senhor apoio a criação da comissão?
Nesse ano de eleição é muito complexo. O Ministério Público já está investigando, junto com a Polícia Federal. Uma CPI não deveria ser só por questão política, deveria ser para trazer a verdade, para realmente punir responsáveis. Isso a Justiça já está fazendo. O Banco Master já está liquidado, já tem vários inquéritos correndo sobre temas específicos. O do BRB é um que está com André Mendonça (ministro do STF). Falando tecnicamente, o que o Parlamento tem a ver com isso? O dinheiro do BRB tem que ser investigado é pela Câmara Legislativa, não pela Câmara Federal ou ou pelo Senado. O que mais? "Ah, teve festinhas pouco republicanas, orgias". Isso é problema pessoal de cada um, se o sujeito não foi lá trocando por serviços públicos, é problema da vida pessoal da pessoa.
E quanto ao suposto envolvimento de autoridades com o Master?
O Judiciário já está apurando. Eu não estou vendo pertinência temática. Onde é que está o interesse político sobre isso? É diferente, por exemplo, do INSS, que é um dinheiro federal, público, e o Parlamento tem a obrigação de fiscalizar a atividade da União. É diferente.
O senhor acredita que o encontro do presidente Lula com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, fora da agenda, deva ser investigado?
O presidente Lula recebeu, o presidente Bolsonaro recebeu vários empresários, o (Michel) Temer recebeu empresários e foi gravado por um empresário, Dilma Roussef recebeu. Isso é função de um presidente da República, do tamanho que ele (Vorcaro) estava, o presidente não vai receber? Isso é normal. Já que tem agente político, deixa na mão do Judiciário para não politizar.
União Brasil, PP e Solidariedade assinaram uma nota em defesa do ministro Dias Toffoli, do STF, no caso do escândalo do Banco Master. O senhor foi procurado para assinar?
Não fui procurado. E mesmo que eu fosse, não vi a necessidade de fazer nota. Acho que o Toffoli foi vítima de vazamentos seletivos da Polícia Federal, porque contrariou alguns interesses. Se ele estava impedindo a investigação de ser conduzida, como outros queriam ou como deveria, eu não sei. As relações pessoais do banqueiro com políticos, membros do Executivo e do Judiciário estão sendo apuradas pelo Judiciário.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/02/25/marcos-pereira-diz-que-decisoes-do-pl-afastam-republicanos-de-alianca-com-flavio-bolsonaro-quem-tem-que-buscar-apoios-e-ele.ghtml





