- Da usura ao hiperturismo, de Bellini a Tintoretto, do paraíso ao inferno
- Cartão-postal vindo do passado, a cidade é um cenário pitoresco para selfies sem fim
Mario Sergio Conti
Domingo, 14 de fevereiro. A caminho de Veneza, parada em Verona para visitar a Basílica de San Zeno, maravilha românica consagrada em 807, posta abaixo pelos húngaros cem anos depois e refeita no século 12. A turba foliona ocupa a praça em frente e começa o Carnaval. A igreja é fechada.
Crianças e velhos, adolescentes e adultos, estão todos de fantasia. Bebe-se pouco, o erotismo é comedido, não há música ao vivo nem em alto-falantes -e ninguém está macambúzio. Tomo Aperol em copo de plástico, acompanho o corso, zanzo pelas ruas cheias de alegria, aprecio o crepúsculo da ponte de Castelvecchio. San Zeno só amanhã.
Segunda-feira. Não há placa indicando a coluna da cripta com uma inscrição em latim. Gina, a guia, me leva até ela, a ilumina com o celular e a boa pedra proclama: "Adaminus di Sancto Giorgio me fecit", ou seja, Adão de são Jorge me fez.
O orgulhoso artesão reaparece no "Canto 45" de Ezra Pound, o que ataca a usura. Emprestar dinheiro a juros e especular, diz o poema, subordina o trabalho concreto à fantasmagoria financeira, faz do Adão de são Jorge concreto um espectro anônimo. Pound abrevia sua fala na coluna para "Adamo me fecit", Adão me fez, e o trabalhador medieval vira o primeiro homem.
É sob uma chuva do cão que vou de vaporeto da estação de trem de Santa Lucia para Fondamenta Nuove. À noite, o firmamento se abre e a praça de San Marco está tomada pela Acqua Alta, a maré que alaga as partes baixas da cidade. Duques, rainhas, condes, uma gente próspera e de fino trato pisa com fausto o espelho d'água, posa com luvas de veludo para fotos-clichê. É Carnaval em Veneza.
Terça-feira. Não é lenda, o hiperturismo mudou o modo de viajar. Acresce que a romancista Mary McCarthy escreveu há 70 anos que não há a cidade secreta que só eleitos conhecem: "A Veneza turística é a Veneza real". Cartão-postal vindo do passado, ela é um cenário pitoresco para selfies sem fim, tendo ao fundo gôndolas, pontes, cúpulas da Renascença.
Resultado: o congestionamento de pedestres na Ponte de Rialto é desesperante; o vozerio agride os ouvidos; as roupas, o bom senso; anda-se em fila indiana; guardas apitam para pôr ordem no fluxo de agoniados. Mas a cidade que se vê da Dogana é uma das boas obras que existem na humanidade.
Quarta-feira de Cinzas. A Scuola Grande di San Rocco não é para carnavalescos. Somos uns gatos pingados a percorrer pomposos salões, escadarias desumanas, taciturnos lambris, 60 quadros do tétrico Tintoretto que cobrem tudo que a vista alcança. Antes de se bater o olho na estética do excesso, contudo, o que mais se vê é dinheiro, a riqueza descomunal amealhada por uma meia dúzia de plutocratas que tem um mau gosto.
Duas pinturas na Basílica de Santa Maria Gloriosa dei Frari dizem mais que Veronese e Tintoretto juntos. O Tríptico de Pesaro, de Bellini, harmoniza afetos incongruentes: maternidade e erudição, carinho e sabedoria -e ainda exibe são Benedito intimidando os passantes com o olhar.
"Assunção", de Ticiano, faz de Maria uma mulher mais verdadeira que um velho doido que se desmancha no ar: Deus. Nas duas imagens, a candura humana supera as divindades enfezadas.
Como que por um encanto, a cidade esvaziou. Não é que tenha ficado sem turistas -afinal, isso é impossível. Mas dá para andar sossegado, percorrer Basílica de São João e São Paulo, uma das maiores da cidade, sem levar cotoveladas. O que continua fora de cogitação é encostar o tórax no balcão do Florian: a fila dobra a esquina. Fundado em 1720, o café mais antigo da Itália é hoje considerado o mais "instagramável" do Sistema Solar.
Quinta-feira. O Palácio Ducal só perde de Versalhes em opulência. Seus salões para 1.200 pessoas diminuem inapelavelmente os que neles entram. A ponte que separa o poder dos doges da masmorra onde podiam ser torturados é chumbo grosso existencial, serve de sinal para o caráter volátil do governo, qualquer governo. Casanova foi preso ali, mas, ao contrário de Sade na Bastilha, escapou. Além de safado, safo.
Está no Palácio dos Doges "Il Paradiso", de Tintoretto, o maior quadro do mundo, também o mais lúgubre. Povoado por 500 pessoas, emboladas entre si num claro-escuro funéreo, ele previu, no final do século 16, o sofrimento atroz das multidões do mundo de então, de depois, de hoje.
Que o seu nome seja "O Paraíso", quando, na verdade, expõe o inferno, é uma antecipação estética do dito de Walter Benjamin: "Não há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie".
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2026/02/diario-do-carnaval-em-veneza.shtml





