Luiz Inácio Lula da Silva se prepara para votar em uma seção eleitoral em São Paulo - Foto: Maira Erlich/Bloomberg |
E o antipetismo chegou

E o antipetismo chegou

A tentação é culpar as pesquisas, mas o diagnóstico é mais sofisticado


Mauricio Moura

Em julho, num grupo focal no interior de São Paulo, perguntamos a uma eleitora em quem ela votaria para presidente. Ela respondeu que ainda não sabia. Insistimos, e ela completou com uma frase que nunca esqueci: "Não sei em quem vou votar, mas sei muito bem em quem não vou. E quem não quero que ganhe". Na pesquisa, ela entraria como indecisa. Na urna, já tinha decidido havia meses. Lembrei dela no domingo, quando a apuração terminou com Flávio Bolsonaro em primeiro lugar. O que decidiu este primeiro turno foi exatamente o que aquela eleitora descreveu: um antipetismo de chegada (ou voto útil anti-PT), que não aparece na largada e só se revela na fila da urna.

A tentação é culpar as pesquisas, mas o diagnóstico é mais sofisticado. A assimetria diz tudo. A quase totalidade do voto petista (ou lulista) é de convicção, se declara cedo e se mede bem. A estabilidade da intenção de voto espontânea de Lula mostrou isso ao longo de todas as pesquisas de 2026. O voto antipetista é de rejeição acima de tudo, e também se decide tarde pelo candidato com maiores chances de vencer o PT. Portanto, escapa da pergunta tradicional sobre intenção de voto.

O caminho desse voto passou pela "terceira via", que funcionou mais como parada do que como alternativa. No fim de setembro, as pesquisas públicas registravam uma soma (de todos esses candidatos) de quase 20% de intenção de voto estimulada. Nas urnas, Augusto Cury, o terceiro colocado, fez 2,89% dos votos válidos, a menor porcentagem para um terceiro colocado desde 1989, e Caiado ficou em terceiro no próprio estado de Goiás, atrás de Flávio e de Lula.

A terceira via não foi derrotada. Ela serviu de estacionamento. O eleitor antipetista que não curte o sobrenome Bolsonaro ficou ali durante a campanha, como quem espera para ver se a opção alternativa decola. Quando percebeu que não decolaria, atravessou a ponte. A leitura de que houve um movimento de antipetismo de chegada (ou voto útil) dos eleitores dos demais candidatos de direita em direção a Flávio no fim de semana é coerente com tudo que os dados históricos e presentes mostram. Perguntamos diretamente sobre voto útil na última pesquisa Meio/Ideia antes da eleição. Quase 40% dos eleitores da terceira via estavam considerando o voto útil.

Pela terceira eleição seguida, o padrão se repete. Aconteceu com Aécio Neves, do PSDB, em 2014 e com Jair Bolsonaro em 2018 e 2022. Já não é acidente, é comportamento.

Para o segundo turno, a aritmética favorece Flávio. Ele precisa de pouco mais de três pontos, e a maior parte do eleitorado que sobrou já mostrou que, obrigado a escolher, fugiu do PT no primeiro turno. Lula tem uma tarefa mais difícil: não basta reconquistar quem votou nele em 2022, é preciso reduzir a rejeição de quem decidiu na última hora que qualquer alternativa era melhor. Há, porém, um reservatório em disputa. A abstenção foi de 21,08%, e outros 3.674.249 eleitores anularam o voto. Esse rescaldo é justamente a mobilização que pode entregar uma incrível virada para Lula.

Fica uma lição para o nosso ofício. Passamos meses tentando medir afetos, e o eleitor insiste em decidir com desafetos. Aquela eleitora do grupo focal não estava indecisa. Estava esperando a hora de dizer não. No dia 25, milhões farão o mesmo. O Brasil não vai escolher um presidente. Vai rejeitar um.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/mauricio-moura/coluna/2026/10/e-o-antipetismo-chegou.ghtml