Eleições 2026 - Lula e Flavio votando - Foto: Fotos Maria Isabel e Guito Moreto |
Flávio deve viajar com Tarcísio e desgastar Lula, que tenta engajar Nordeste e usa Alckmin como cartada no segundo turno

Flávio deve viajar com Tarcísio e desgastar Lula, que tenta engajar Nordeste e usa Alckmin como cartada no segundo turno

Candidato do PL vai manter a aposta no antipetismo, e presidente tentará ampliar placar em estados onde foi vitorioso

Por Jeniffer Gularte e Luísa Marzullo - Brasília

Após passar ao segundo turno em primeiro lugar, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, conta com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para ampliar a vantagem no estado e deve viajar com o aliado pelo país, em agendas que começam a ser fechadas nos próximos dias. Nesta terça-feira, o senador irá a Goiânia para receber o apoio de Ronaldo Caiado (PSD), que teve 2,6 milhões de votos no primeiro turno, e do governador reeleito Daniel Vilela (MDB). A campanha também aposta no desgaste do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma tentativa de apresentá-lo como um personagem político ultrapassado. Já a campanha do atual presidente mira ampliar o placar no Nordeste e aumentar o papel do vice, Geraldo Alckmin, buscando atrair eleitores de centro.

A campanha de Flávio vai manter o mote do antipetismo, as bandeiras de segurança pública e custo de vida e fará uma ofensiva para aproximar aliados que saíram fortalecidos das urnas, caso de governadores que foram vitoriosos no primeiro turno.

A vantagem obtida no primeiro turno, em que teve 47% dos votos contra 45% de Lula, levou a campanha de Flávio a descartar, neste primeiro momento, uma reformulação profunda da estratégia. A avaliação é que o candidato precisa ampliar o eleitorado sem abandonar o discurso que o levou à dianteira.

Para isso, a estratégia é investir nos eleitores dos candidatos Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), que foram derrotados.

Juntos, Renan, Caiado e Zema somaram 5,6 milhões de votos. Zema deve declarar apoio a Flávio junto com o Novo nos próximos dias. Caiado, por sua vez, acertou nesta segunda-feira sua adesão ao candidato do PL. Após um telefonema de Flávio, o ex-governador confirmou que estará com o senador e combinou um ato para formalizar o apoio nesta terça-feira, em Goiânia. A expectativa é que o evento reúna prefeitos e parlamentares de seu grupo político, além de Daniel Vilela.

A adesão interessa à campanha também pelo eleitorado reunido por Caiado no primeiro turno, quando recebeu 2,6 milhões de votos. Daniel Vilela afirmou ainda que pretende apresentar a Flávio propostas elaboradas pela campanha presidencial do ex-governador para que possam ser incorporadas ao programa do candidato do PL no segundo turno.

Renan, que recebeu 2,67 milhões de votos, não deve apoiar nenhum dos dois candidatos e tende a incentivar o voto nulo, orientação que a equipe de Flávio acredita que não será seguida por todo o seu eleitorado.

Mais difícil, na avaliação da campanha, será avançar sobre os 3,4 milhões de eleitores de Augusto Cury (Avante) e sobre quem não escolheu nenhum candidato no primeiro turno. Nesse campo, a estratégia é explorar a insatisfação com o governo e dar mais espaço a temas econômicos que atinjam o cotidiano, sobretudo preços e poder de compra, sem depender apenas da identificação com a direita. A equipe também pretende buscar parte dos eleitores que se abstiveram ou votaram em branco e nulo, grupo visto como uma fonte adicional de votos numa disputa em que Flávio já começa próximo da maioria necessária.

A busca por esses eleitores terá também um componente territorial. A campanha pretende concentrar esforços nos três maiores colégios eleitorais e aproveitar o resultado de aliados que saíram fortalecidos das urnas. Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo, deverá entrar de forma mais intensa na campanha e pode ceder integrantes de sua equipe, sobretudo das áreas de marketing e redes sociais. Em Minas, Flávio contará com Cleitinho Azevedo (Republicanos), eleito governador, e Nikolas Ferreira (PL), que teve mais de 3 milhões de votos para deputado federal. No Rio, Douglas Ruas (PL) também deverá participar das agendas.

A intenção, porém, é não limitar essas lideranças às fronteiras de seus estados. Tarcísio já se colocou à disposição para participar de compromissos fora de São Paulo, e nomes com apelo sobre segmentos específicos deverão ser deslocados segundo o público que a campanha pretende alcançar. Nikolas, presença frequente ao lado de Flávio no primeiro turno, deverá continuar sendo acionado em agendas voltadas principalmente aos eleitores mais jovens e cristãos.

Na tarde desta segunda-feira, Flávio se reúne com a equipe para fazer um alinhamento da estratégia para os próximos 19 dias. A expectativa é que intensifique agendas também no Nordeste, com o objetivo de reduzir a vantagem de Lula na região.

Também mirando a parcela do eleitorado que não optou por Flávio nem Lula no primeiro turno, a campanha do PL vai reforçar a necessidade de mudança, tom usado pelo senador no discurso após o resultado. O presidenciável disse que a "era do PT" terminou e vai insistir na rejeição a Lula como um dos eixos da campanha no segundo turno.

Os planos de Lula

No caso de Lula, o desafio é buscar uma virada inédita - nunca um candidato à Presidência que passou ao segundo turno atrás do adversário foi vitorioso. A necessidade vai forçar uma guinada na campanha, e uma nova estratégia está sendo desenhada. O plano inclui a tentativa de ampliar a vantagem no Nordeste, onde superou Flávio e o PT reelegeu três governadores, e reduzir a abstenção. No primeiro turno, 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas, um índice de 21,08%, o maior desde 1998 e recorde em números absolutos. O PT já começou a orientar a militância a procurar eleitores que não votaram e convencê-los a ir às urnas em 25 de outubro.

Internamente, Lula disse a aliados logo após o resultado que é preciso identificar onde a campanha errou e buscar corrigir os rumos para o segundo turno. Auxiliares que acompanharam a apuração com o petista avaliam que mudanças precisam ser feitas para as próximas três semanas.

A estratégia do PT deve começar pela tentativa de ampliar o apoio em estados onde Lula e candidatos petistas já tiveram boa votação, especialmente no Nordeste, onde o partido reelegeu os governadores Rafael Fonteles, no Piauí, Elmano de Freitas, no Ceará, e Jerônimo Rodrigues, na Bahia. Haverá também foco em Minas Gerais, onde Lula venceu em 2022, mas foi derrotado por Flávio agora.

Lula também deve dar mais protagonismo a Alckmin, numa tentativa de ampliar o diálogo com eleitores de centro.

- Ninguém neste país tem autoridade moral para falar de política fiscal e seriedade fiscal para mim e para o Alckmin. Pelo que ele fez no estado de São Paulo e pelo que nós fizemos no Brasil - disse Lula, em uma das referências ao vice no discurso de domingo à noite, após a divulgação do resultado.

Setores do governo e da campanha criticaram o fato de Alckmin não ter tido um papel de destaque no primeiro turno. A avaliação é que o vice tem condições de dialogar com uma fatia do eleitorado que é refratária a Lula e ao PT. Pelo plano definido após o resultado do primeiro turno, Alckmin também deve aparecer mais no horário eleitoral na televisão.

Na tarde desta segunda-feira, Lula deve se reunir em Brasília com a coordenação da campanha, além de políticos aliados que disputaram vagas ao Senado e aos governos estaduais, para discutir os rumos da candidatura no segundo turno. Auxiliares do presidente entendem também que podem explorar a rejeição a Flávio e pretendem continuar vinculando o adversário às suspeitas envolvendo o Banco Master - Lula tem se referido ao caso como a "orgia do Master". Segundo a Quaest, Flávio é rejeitado por 56% dos eleitores, e Lula, por 55%.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/05/flavio-busca-votos-na-direita-no-segundo-turno-enquanto-lula-busca-ampliar-placar-no-nordeste-e-usa-alckmin-como-cartada.ghtml