Parque Güell é um dos cartões-postais mais famosos de Barcelona, projetado por Antoni Gaudí  Unsplash |
Barcelona limita turistas a 16 milhões por ano para frear turismo excessivo

Barcelona limita turistas a 16 milhões por ano para frear turismo excessivo

Cidade espanhola quer estabilizar o fluxo de visitantes e recuperar espaços para moradores após pressão provocada pelo excesso de turistas


CNN Viagem & Gastronomia, do Viagem & Gastronomia

Barcelona está entre os destinos mais desejados da Europa. Agora, após quase uma década adotando medidas para conter os impactos do turismo de massa, a cidade decidiu estabelecer um teto para o número de visitantes: cerca de 16 milhões por ano.

Esse é o limite que a cidade deseja suportar, mantendo o número registrado em tempos recentes. No ano passado, por exemplo, a cidade contabilizou 15,7 milhões de visitantes. "A mensagem da cidade agora é: nem um turista a mais", afirmou José Antonio Donaire, comissário de Turismo Sustentável de Barcelona, em entrevista ao The New York Times.

A estratégia faz parte de um plano para reduzir os efeitos do chamado "overtourism", ou turismo excessivo, - quando um destino recebe mais turistas do que sua infraestrutura consegue suportar - e devolver aos moradores espaços que, segundo a administração municipal, perderam sua identidade ao longo dos anos.

Donaire, que ocupa o recém-criado cargo de comissário de Turismo Sustentável de Barcelona, afirmou que uma nova diretriz não permitirá que a quantidade de turistas anuais ultrapasse os últimos números registrados. "Não queremos crescer mais. Dezesseis milhões é o máximo", declarou.

O que muda em Barcelona

A meta, segundo Donaire, é poder administrar melhor quem chega à cidade. Atualmente, cerca de dois terços dos visitantes viajam por lazer. A prefeitura pretende equilibrar esse perfil para que, no futuro, um terço seja formado por turistas de negócios, um terço por visitantes interessados em cultura e outro terço por viajantes de lazer.

"Não adotamos uma postura contrária ao turismo. O que precisamos é administrar a atividade de forma organizada, e o primeiro objetivo dessa gestão é mudar o perfil dos turistas que visitam a cidade", disse ao jornal.

A Espanha é o segundo país mais visitado do mundo, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo (OMT), e Barcelona concentra algumas de suas atrações mais procuradas. Somente a Basílica da Sagrada Família recebeu quase cinco milhões de visitantes em 2025. Neste ano, o templo católico, que está há mais de um século em construção, tornou-se oficialmente a igreja mais alta do mundo com 172,5 metros após a conclusão da Torre de Jesus Cristo.

Locais como La Rambla, o Mercado de La Boqueria, o Parc de la Ciutadella, Montjuïc e o Museu Picasso seguem entre os principais cartões-postais da cidade.

Para o comissário, o crescimento da demanda também será limitado pela própria oferta de hospedagem. "Já neste verão estamos vendo pessoas que não conseguem vir porque não encontram onde ficar. Não vamos atender ao aumento da demanda", afirmou.

Junto de outras criações de Gaudí, a fachada e a cripta da Sagrada Família são reconhecidas como Patrimônio da Humanidade  Boris Hadjur/Unsplash
Junto de outras criações de Gaudí, a fachada e a cripta da Sagrada Família são reconhecidas como Patrimônio da Humanidade  Boris Hadjur/Unsplash

As medidas para conter o turismo de massa em Barcelona

O teto de visitantes faz parte de um conjunto de iniciativas adotadas pela cidade ao longo dos últimos anos. Em 2017, Barcelona deu início a uma reformulação de sua política de turismo ao adotar medidas como a moratória para a construção de novos hotéis. Mais recentemente, anunciou o fim das licenças para apartamentos de aluguel por temporada, medida que entrará em vigor em 2028.

No ano passado, o governo espanhol também anunciou o bloqueio de cerca de 65 mil anúncios de hospedagem na plataforma Airbnb.

Outra questão levantada por Donaire durante a entrevista diz respeito ao aumento da taxa turística, com o objetivo de fazer com que os próprios visitantes financiem os custos gerados pelo turismo.

"Queremos poder dizer aos moradores que todos os serviços utilizados pelos turistas - segurança, saneamento, eletricidade e transporte - são totalmente subsidiados pela taxa turística", explicou. "De certa forma, pode-se dizer que os turistas estão financiando a 'desturistificação' de Barcelona."

A prefeitura também pretende endurecer as regras para os cruzeiros que fazem apenas escalas de um dia na cidade. A proposta é elevar ao máximo o imposto cobrado desses passageiros para tornar esse tipo de visita menos atrativa.

Recuperar a cidade para moradores

Barcelona pretende recuperar espaços que perderam seu caráter residencial ao longo das últimas décadas.

Entre as prioridades está revitalizar o Mercado de La Boqueria para que volte a ser frequentado pelos moradores, ampliando o número de bancas dedicadas à venda de produtos para o dia a dia, e não apenas alimentos prontos para turistas.

A mesma estratégia vale para a tradicional La Rambla. A prefeitura pretende reduzir a presença de estabelecimentos voltados exclusivamente ao turismo e incentivar um comércio mais diversificado.

"É importante que qualquer morador possa comprar um pão, um livro ou um parafuso no seu bairro", afirmou Donaire.

O que é o "overtourism"

O termo "overtourism", ou turismo excessivo, se refere às situações em que um destino turístico recebe mais visitantes do que consegue absorver de forma sustentável. O resultado costuma ser o aumento do custo de vida, da inflação imobiliária, do trânsito, da produção de lixo e da pressão sobre os serviços públicos, além da perda de identidade de bairros históricos.

Especialistas ouvidos anteriormente pelo CNN Viagem & Gastronomia apontam que a expansão das plataformas de aluguel por temporada e das redes sociais acelerou esse fenômeno em diversas partes do mundo. Ao transformar determinados locais em destinos virais, essas ferramentas concentram um número cada vez maior de visitantes em áreas que muitas vezes não possuem infraestrutura para recebê-los.

"Isso causa um impacto na relação entre oferta e procura: houve aumento da procura e redução da oferta", explica Edegar Tomazzoni, professor do curso de Turismo na Universidade de São Paulo (USP).

Essa inflação expulsa os moradores de zonas onde gostariam de viver e gera um "efeito cascata", diz Tatiana Marodin, doutora no tema pela Universidade de Caxias do Sul. "Há aumento no preço dos imóveis, alimentos, custo de vida e a pessoa perde o poder de compra", completa.

CNN Brasil
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