- OUTRO LADO: Gestão Nunes não comenta representações mas diz que obra irá beneficiar mais de 800 mil pessoas por dia
- Estudo independente aponta que intervenções em semáforos custariam apenas R$ 1 milhão
Mônica Bergamo
Diego Alejandro
Quatro vereadores de São Paulo acionaram o Ministério Público estadual para tentar barrar o avanço da obra do túnel Sena Madureira, na Vila Mariana, zona sul da capital. Assinam as representações Renata Falzoni (PSB), Nabil Bonduki (PT), Marina Bragante (Rede) e Toninho Vespoli (PSOL).
Eles protocolaram duas notícias de fato, uma na Promotoria do Patrimônio Público e outra na de Habitação e Urbanismo. Ambas pedem a abertura de inquérito civil, a suspensão da licitação e, no caso urbanístico, a anulação do Estudo de Viabilidade Ambiental (EVA) de 2024. Além disso, eles conseguiram aprovar um requerimento para uma audiência pública na Câmara dos Vereadores para debater a obra orçada em R$ 622,2 milhões.
A prefeitura não comentou a iniciativa, mas defendeu que a obra "vai melhorar a fluidez do trânsito, ampliar a conexão entre bairros e beneficiar mais de 800 mil pessoas por dia".
Na representação sobre patrimônio público, os parlamentares afirmam que não há justificativa técnica suficiente para a construção do túnel e apontam possível afronta aos princípios da economicidade e da motivação na administração pública.
Eles anexaram um estudo independente de engenharia de tráfego que propõe alternativas viárias de baixo custo. Segundo o documento, intervenções pontuais -como reprogramação semafórica e mudanças de sentido em vias- poderiam melhorar a circulação com investimento estimado em cerca de R$ 1 milhão, o equivalente a 0,16% do valor previsto para o túnel.
O levantamento utilizou câmeras para contagem de veículos e simulações com metodologia adotada pela própria CET. As conclusões indicam que o túnel atenderia apenas uma parcela minoritária dos fluxos da região, cerca de 18% dos veículos nos horários de pico.
Os vereadores também sustentam que a obra pode apenas deslocar congestionamentos para outros pontos do sistema viário, sem resolver os gargalos principais.
Já a representação na área de urbanismo aponta falhas no estudo ambiental, que, segundo os vereadores, considera apenas o fluxo de automóveis e ignora outros modos de transporte.
Eles também afirmam que o projeto se baseia em premissas equivocadas -como a eliminação de uma conversão na avenida Domingos de Morais que não ocorreria- e que prevê a ligação do túnel a uma via local estreita, sem capacidade para absorver o tráfego.
Procurada, a prefeitura de São Paulo diz que a obra vai melhorar a fluidez do trânsito e beneficiar mais de 800 mil pessoas por dia. "A revisão do projeto do túnel e da requalificação urbana do entorno, realizadas pela atual gestão, trouxe significativos ganhos ambientais e de mobilidade."
Segundo a gestão municipal, o EVA de 2024 foi submetido a consultas públicas e estabelece as exigências para execução da obra. A licitação está em fase final.
"A prefeitura sequer considerou alternativas mais simples e de custo baixíssimo", diz Renata Falzoni. Para ela, insistir no túnel é "jogar fora" recursos que poderiam ser destinados ao transporte coletivo.
Marina Bragante afirma que há opções "mais eficientes, mais baratas e com menos impacto ambiental". Toninho Vespoli fala em "desperdício de recursos públicos". Já Nabil Bonduki cita risco de remoção de moradores e ausência de solução habitacional definitiva.
com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/03/vereadores-acionam-mpsp-para-barrar-tunel-de-r-622-mi-e-propoem-alternativa-600-vezes-mais-barata.shtml





