Unidade industrial da CSN, em Volta Redonda (RJ): companhia anunciou plano de desinvestimentos de ativos de até R$ 18 bilhões para reduzir endividamento Foto: Marcos Arcoverde/Estadão |
Grupo J&F, dos irmãos Batista, avalia aquisição da CSN Cimentos, de Benjamin Steinbruch

Grupo J&F, dos irmãos Batista, avalia aquisição da CSN Cimentos, de Benjamin Steinbruch

Valor da empresa é estimado em ao menos R$ 10 bilhões, incluindo dívidas, e negócio traria alívio ao endividamento do grupo CSN, que busca até R$ 18 bilhões com venda de ativos


Por Ivo Ribeiro

A holding de negócios J&F Investimentos, dos irmãos Batista (Joesley e Wesley), dona da multinacional JBS, está analisando a aquisição do controle da CSN Cimentos, empresa da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O negócio, considerando a totalidade das ações da companhia, é estimado em ao menos R$ 10 bilhões, incluindo dívidas.

A operação faz parte do plano de venda de ativos lançado no início de janeiro pelo empresário Benjamin Steinbruch, dono da CSN para reduzir o elevado endividamento líquido da companhia, próximo de R$ 40 bilhões. O objetivo é arrecadar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões. A alienação do controle da cimenteira é o pilar central desse programa, que visa baixar a alavancagem financeira do grupo CSN.

O Estadão apurou com pessoas próximas das negociações que a CSN Cimentos foi oferecida há menos de um mês à J&F. Houve interesse do grupo pela companhia, que tem 21% do mercado brasileiro e é vice-líder de vendas, atrás da Votorantim Cimentos. O processo de avaliação se encontra em fase preliminar, de acordo com interlocutores. Procurada, a J&F informou que não comenta.

De acordo com informações, a operação de compra seria por meio de uma injeção de capital da J&F na cimenteira, após ser separada da CSN e se tornar uma "NewCo", levando junto um pacote de dívida do grupo CSN. Na operação, a companhia de Steinbruch seria bastante diluída, tornando-se minoritária. A CSN tem assessoria dos bancos Morgan Stanley e Santander nessa venda.

A CSN enfrenta aumento da alavancagem desde o início de 2024. No final de setembro passado (balanço mais recente), a relação da dívida líquida sobre o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) foi a 3,14 vezes, o que acendeu uma luz vermelha na companhia.

Naquele momento, Steinbruch decidiu, com seus executivos, montar um plano de desalavancagem calcado em desinvestimentos de alguns ativos. Além de vender ações na empresa de ferrovia MRS no fim do ano, selecionou as áreas de cimento e de infraestrutura (até 30%). A cimenteira é vista como o ativo mais líquido para venda, desde que o empresário esteja disposto a abrir mão do controle da empresa.

A CSN precisa rapidamente estancar sua alavancagem. A empresa teve rebaixamento de ratings desde novembro das agências de classificação de risco S&P Global, Fitch e Moody's, as quais destacaram preocupação com a alta alavancagem, consumo de caixa e desempenho fraco nos setores de siderurgia e mineração.

Procurada, a CSN informou que não vai se manifestar sobre o assunto.

Expansão com aquisições

A cimenteira da CSN, formada a partir de 2009, tem uma capacidade de produção de 17 milhões de toneladas por ano em 13 fábricas (sete integradas e seis moagens). Estão localizadas nas regiões Sudeste (9), Nordeste (3) e Centro-Oeste (1). O parque fabril da CSN Cimentos teve forte crescimento a partir de 2021, quando adquiriu a Cimento Elizabeth, na Paraíba, e LafargeHolcim Brasil, com diversas unidades industriais, em 2022. A CSN desembolsou R$ 6 bilhões.

Durante 2024, a CSN Cimentos tentou ainda comprar os ativos de cimento da InterCement (grupo Mover), no Brasil e na Argentina, numa operação de quase R$ 10 bilhões envolvendo dívidas. Após quase um ano de negociações, o negócio não se concretizou, e a InterCement pediu recuperação judicial.

A companhia tem receita na casa de R$ 5 bilhões ao ano, com venda de 14 milhões de toneladas de cimento, além de outros materiais, como brita e calcário agrícola. A divisão cimenteira, conforme a CSN, responde por 10,6% da receita total do grupo. O Ebitda da cimenteira, anualizado até 30 de setembro, atingiu R$ 1,3 bilhão.

Segundo especialistas do mercado ouvidos pelo Estadão, o valor bruto da CSN Cimentos, incluindo dívidas, é estimado por múltiplo de 8 vezes a geração de Ebitda, ou seja, entre R$ 10,4 bilhões e R$ 11,2 bilhões. Porém, Steinbruch deverá pedir um preço superior a essa avaliação, estimam especialistas do setor.

Na apresentação do "plano estratégico", em 15 de janeiro, a CSN destacou que a cimenteira, além de "liderança na produção integrada e custo competitivo", tem potencial de crescimento único no País com projetos greenfield (3 novas fábricas somando 12 milhões de toneladas) e de expansão (mais 1,4 milhão de toneladas, "em estágio avançado". Para duas novas fábricas, a CSN já disse dispor de equipamentos comprados e armazenados há alguns anos.

Mais diversificação da J&F

A relação de Steinbruch com os Batista se estreitou no ano passado, quando a CSN, sob pressão judicial e do órgão antitruste brasileiro (Cade), teve de se desfazer de ações que tinha na concorrente Usiminas. Steinbruch vendeu 4,99% do capital social da siderúrgica mineira para um fundo dos Batista.

A operação foi realizada com a Globe Investimentos S.A. por cerca de R$ 263 milhões. A Globe não está oficialmente sob o guarda-chuva da J&F ― o veículo de investimentos pertence à própria família e é presidido por Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley Batista e presidente da J&F.

Dona da JBS, maior produtora mundial de proteína animal, Eldorado Celulose, Banco Original, Pic Pay, Âmbar Energia, Flora (higiene e limpeza) e outros investimentos, nos últimos cinco anos, os Batista avançaram em várias áreas industriais. Em 2022, comprou os ativos de minério de ferro e manganês da Vale em Corumbá (MS), por US$ 1,2 bilhão (R$ 6 bilhões) e com isso foi criada a LHG Mining.

A LHG, que já produz volume na faixa de 9 milhões de toneladas por ano, tem um plano ambicioso de elevar sua produção anual, até 2030, a 25 milhões de toneladas de minério de ferro, exportando o produto para o mercado asiático via rio Paraguai, em barcaças que fazem o transbordo em navios num porto do Uruguai.

Em agosto passado, a família anunciou também investimento no setor de fertilizantes. A VL Mineração adquiriu por US$ 27 milhões (R$ 146 milhões) a mina de potássio Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete (SE), da multinacional Mosaic. Com isso, os Batista entraram no ramo de fertilizantes.

Outros movimentos ocorreram na área de petróleo e gás, com a Fluxus, e na produção de biodiesel a partir de resíduos com a Biopower. No setor de energia, a Âmbar fez vários investimentos em geração (térmica, solar, hídrica), comercialização de energia, gás natural e energia nuclear. Por R$ 535 milhões, comprou da antiga Eletrobras (atual Axia) uma fatia da Eletronuclear, tornando-se sócia do governo na gestão das usinas de Angra.

Estadão
https://www.estadao.com.br/economia/negocios/grupo-jf-dos-irmaos-batista-avalia-aquisicao-da-csn-cimentos-de-benjamin-steinbruch/